17 de out. de 2007

+ Teatro
Sem aplausos este ano
Teatro de Comédia do Paraná volta a passar por um hiato
Foto: Centro Cultural Teatro Guaíra

Inativo no período de 2001 a 2003, TCP retomou sua produção com Medeamaterial (foto), em 2004.

Alguém ouviu falar alguma coisa sobre o Teatro de Comédia do Paraná (TCP) este ano? Passaram festival de bonecos, ópera (La Traviata), balé (Atelier Coreográfico) e nada do Centro Cultural Teatro Guaíra anunciar a peça que costuma produzir anualmente com a marca do TCP, desde que ele foi retomado em 2004.

Como explica a produtora do Teatro Guaíra, Bia Reiner, por falta de verba, este ano o TCP não pôde montar mesmo nenhum espetáculo. No ano passado, o TCP gastou em torno de R$ 80 mil na montagem de Memória, dirigida por Moacir Chaves, o que já não era muito. Segundo Bia, a produção de um grande espetáculo custa, no mínimo, em torno de R$ 150 mil. Esse ano, porém, simplesmente não sobrou dinheiro algum para o TCP.

“O Teatro Guaíra vem sofrendo cortes ano a ano e a direção teve que fazer certas escolhas”, diz Reiner. “Optamos então por manter projetos como a ópera, o Festival Espetacular de Teatro de Bonecos e o balé.” De acordo com ela, em 2006, o valor destinado às produções artísticas do Guaíra foi de aproximadamente R$ 350 mil. Em 2007, caiu para cerca de R$ 200 mil.

Com as mudanças na administração do teatro ocorridas no início do ano – a jornalista Marisa Villela assumiu a diretoria da instituição –, também não houve tempo para viabilizar um patrocínio para o TCP via Lei Rouanet, argumenta a produtora. Ela afirma que, para 2008, essa captação de recursos já será possível e o TCP poderá montar talvez até dois espetáculos.

Ciclo de leituras foi cortado
A falta de dinheiro também fez com que o Ciclo Novas Leituras (produção de leituras dramáticas de autores contemporâneos), realizado em 2005 e 2006, fosse interrompido esse ano. “Mesmo sendo um projeto relativamente barato, [custava em torno de R$ 12 mil ao ano] ele acabava atingindo mais a classe artística”, diz Reiner.

Ela afirma que a atual política do Guaíra é a de manter projetos mais populares, como o Teatro para o Povo, por exemplo, no qual peças são apresentadas aos domingos com entrada gratuita.

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Trajetória do TCP
Pelo Teatro de Comédia do Paraná passaram grandes nomes do teatro paranaense e nacional, como Lala Schneider, Mário Schoemberger, Ademar Guerra e Paulo Goulart

Foto:Centro Cultural Teatro Guaíra

Cena de Um Elefante no Caos (1963), peça de estréia do TCP.

Números
- Em um de seus momentos mais profícuos, o TCP montou sete peças em 1992 e sete em 1993.
- No total, o TCP já produziu 72 espetáculos.


O Teatro de Comédia do Paraná (TCP) surgiu com a finalidade de orientar e coordenar as atividades teatrais do Teatro Guaíra, em 1963. Nesse ano foram montadas as suas duas primeiras peças: Um Elefante no Caos, de Millôr Fernandes, e A vida impressa em dóllar, de Clifford Odets, ambas dirigidas por Cláudio Correia e Castro.

O TCP seguiria então produzindo no mínimo dois espetáculos por ano e, em 1968, chegaria a produzir cinco – Tempestade em Água Benta, de J.C. Cavalcanti Borges, dirigido por José Maria Santos, estaria entre eles. A média cairia em 1971, quando foi montada apenas uma peça infantil: O Cavalinho Azul, de Maria Clara Machado, com a direção de Antônio Carlos Kraide.

1973 foi o primeiro ano em que não houve montagem do TCP. Isso se repetiu em 1978, de 1980 a 1983, de 1985 a 1988, de 1998 a 1999, e de 2001 a 2003.

Em 2004, a produção foi retomada com Medeamaterial, de Heiner Müller, dirigida por Mariana Percovich, seguida por Pico na Veia (2006), de Dalton Trevisan, dirigida por Marcelo Marchioro, e Memória (2006), de Machado de Assis, dirigida por Moacir Chaves. Agora, em 2007, o TCP volta a passar por mais um hiato.

Algumas das produções do TCP

que mais se destacaram

Sucesso de público, New York por Will Eisner (1990), de Will Eisner, dirigida por Edson Bueno, recebeu o troféu APAC de melhor espetáculo e seis prêmios Gralha Azul.

A Vida de Galileu (1989), de Bertolt Brecht, teve a direção de Celso Nunes e Paulo Autran no papel-título. A peça excursionou pelo interior do Paraná, Porto Alegre, Florianópolis e São Paulo.

Colônia Cecília (1986), de Renata Palotini, com direção de Ademar Guerra, foi uma das peças mais populares do TCP. Recebeu cinco prêmios Gralha Azul, entre eles o de melhor espetáculo.


Paraná, Terra de Todas as Gentes (1974), de Adherbal Fortes e Paulo Vítola, dirigida por Maurício Távora, inaugurou o auditório Bento Munhoz da Rocha Netto (Guairão) e recebeu o prêmio Gralha Azul de melhor espetáculo.

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Artistas comentam sobre o TCP
"O TCP passa por um momento muito ruim, e não é problema da administração do Teatro Guaíra. Eu conheço a diretoria e sei que eles querem produzir. O problema é a falta de verba. É estranho. Quando o Oswaldo Loureiro foi diretor do Guaíra [de 1991 a 1994], houve uma porção de espetáculos. E o Requião era quem estava no governo. Como é que antes ele deu condições para o teatro se desenvolver e agora não?"
“O teatro paranaense precisa dar uma oxigenada, precisa desse intercâmbio entre artistas locais e nacionais que o TCP proporciona." Beto Bruel, iluminador
“Acho lamentável o fato do TCP não montar nenhuma peça essa ano. Há algum tempo o TCP vem ficando com uma atuação bem mais restrita do que antes. E essa falta de verba não atinge só o TCP, mas também a orquestra e o balé do Teatro Guaíra.”
"O TCP deveria voltar a fazer co-produções. Isso daria uma continuidade maior para o TCP e uma consistência para os trabalhos das companhias locais.” Enéas Lour, ator e dramaturgo
“O TCP é uma chance dos artistas fazerem um grande espetáculo com um pouco mais de produção. É uma pena que o TCP não faça nada esse ano. É uma parte da nossa tradição cultural que vai se perdendo. A cultura deveria só aumentar, e não diminuir. Isso é tão retrógrado.” César Almeida, ator, diretor e dramaturgo

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