6 de mar. de 2008

+ Literatura
Um pretexto para falar de Döblin
2007 foi o ano do cinqüentenário de morte do escritor alemão Alfred Döblin

Alfred Döblin (1878 – 1957): um escritor, segundo Günther Grass, “de igual mérito ou maior do que Thomas Mann”.

Como vocês bem sabem, comemorar tantos anos de morte ou até da hipotética vida de um artista - “se Zequinha estivesse vivo, completaria hoje 100 anos...” - é sempre um gancho jornalístico. Idiota, muitas vezes, principalmente quando não se acrescenta nada de novo sobre o falecido.

Portanto, é com uma certa dose de vergonha que farei uso desse combalido artifício neste texto. Mas como não tenho notícia de novas traduções para a obra do escritor alemão Alfred Döblin, nem ouço falar de adaptações de seus livros para o cinema ou teatro, só me resta falar aqui do seu cinqüentenário de morte. No ano que passou, parece que ninguém, no Brasil, lembrou que Döblin faleceu no dia 26 de junho de 1957.

Ao longo de 79 anos de vida, este escritor, médico psiquiatra e intelectual escreveu mais de 30 livros e conquistou a admiração de conterrâneos como Bertolt Brecht, Walter Benjamin, Kurt Tucholsky e Günther Grass. Este último chegou a criar um prêmio literário com o seu nome, o Alfred Döblin Preis, mantido pela Academia de Arte de Berlim.

Traduções escassas
Para aqueles que nunca ouviram falar de Alfred Döblin e talvez depois pretendam procurar por seus livros, é bom que se avise: o que existe de sua obra em português dá para se contar nos dedos.


Resume-se ao ensaio O Romance Histórico e Nós (Der historische Roman und wir), ao conto O Assassinato de um Dente-de-Leão (Die Ermordung einer Butterblume), ao relato autobiográfico Viagem ao Destino (Schicksalsreise) e ao romance Berlim Alexanderplatz, sua principal obra. (Saiba mais sobre esses textos em “Bibliografia disponível em português”).

E não pensem que as traduções de Döblin são escassas só em língua portuguesa. Basta pesquisar na Internet e no catálogo de bibliotecas do Instituto Goethe para se constatar que em outros idiomas, como inglês e espanhol, também o autor é pouco traduzido.

Eis porque estudar alemão, apesar de tarefa hercúlea, tem suas vantagens. Só assim para se conhecer a fundo todo o universo criativo de Alfred Döblin.

*Publicada na Revista Mediação nº10

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O indivíduo no caos da metrópole
Berlim Alexanderplatz apresenta os descaminhos de um ex-presidiário que luta para sobreviver na selva da cidade


Cena de Berlim Alexanderplatz na versão de Fassbinder.

Felizmente, temos a principal e mais conhecida obra de Alfred Döblin traduzida para o português – na versão de Lya Luft, para a Editora Rocco, e na de Sara e Teresa Seruya para as Publicações Dom Quixote.

Publicado em 1929, em plena República de Weimar, o romance Berlim Alexanderplatz apresenta a saga do ex-presidiário Franz Biberkopf, que depois de solto procura reconstruir sua vida e andar nos eixos.

Nessa história, o autor conseguiu reproduzir com perfeição a atmosfera caótica de uma grande metrópole. Franz está sempre em meio a uma multidão de outros personagens tão humildes e amaldiçoados quanto ele, e um narrador onisciente (sempre irônico!) faz questão de incorporar ao seu discurso – que mescla tanto o alemão padrão como o dialeto berlinense – uma avalanche de informações esdrúxulas, oriundas das mais diversas fontes, como jornais, anúncios ou textos científicos.

Para se ter uma idéia, na passagem que descreve como Franz matou sua ex-mulher com uma batedeira, o narrador chega a invocar a lei de Newton de ação e reação para explicar tal fato. Por tudo isso, o livro foi comparado em ousadia ao Ulysses (1922) de James Joyce.

Adaptações
Grande fã de Berlim Alexanderplatz, o diretor alemão Reiner Werner Fassbinder fez uma adaptação do romance para a TV, em 1980, com 15 horas de duração. Antes disso, o livro já tinha sido adaptado para o cinema com um roteiro do próprio Alfred Döblin e dirigido por Phil Jutzi em 1931 – entretanto com duração (o filme tem uma hora e meia) e resultado bem mais modestos.

Em 2005, foi a vez do livro virar peça de teatro. Frank Castorf, diretor da companhia alemã Volksbühne, encenou a obra na Schlossplatz, praça que fica ao lado da Alexanderplatz, em Berlim.


*

Trecho do posfácio de Alfred Döblin para uma reedição de Berlim Alexanderplatz em 1955. (Tradução de Sara Seruya e Teresa Seruya)



(...) Pensava ele [Franz Biberkopf], acabado de sair da cela, que era possível iniciar uma vida novinha em folha, fresca, foliona, livre. Mas lá fora nada tinha mudado, e ele próprio continuava o mesmo.

Como havia de sair dali um novo resultado? Manifestamente, só na medida em que um dos dois fosse destruído, ou Berlim ou Franz Biberkopf. E como Berlim se manteve como era, coube a Franz modificar-se.

Portanto, o tema mais fundo reza: o sacrifício é o caminho, oferecer-se a própria pessoa em sacrifício. E bem cedo brotam no livro, também para quem sabe ler, os temas do sacrifício: o bíblico Abraão está para sacrificar o filho único ao Deus supremo, somos conduzidos ao matadouro no Leste da cidade para assistir à morte de animais.

Franz Biberkopf queria o bem, mas o que era isso mais do que uma palavra? Faço-o passar pela ala dos açoites, as desgraças sucedem-se: Biberkopf à caça do Bem, uma caça de olhos fechados, tendo um cavalo desenfreado por baixo, quando é que os dois, cavalo e cavaleiro, irão partir o pescoço? No fim parecem ter partido o pescoço.

Mas quando Franz vai parar ao manicômio, alguma coisa, apesar de tudo, mudou nele. O sacrifício consumou-se sem o mínimo ruído. Como consta do final, ei-lo porteiro duma fábrica, vivo mas escangalhado, a vida apoderou-se violentamente dele.

Este livro, cuja publicação em folhetim foi recusada pelos dois mais importantes jornais liberais de Berlim, veio a sair em folhetim no velho Frankfurter Zeitung, causando já na altura grande sensação.

Depois de publicado, Berlim Alexanderplatz revelou-se best-seller, seguindo-se-lhe edições atrás de edições e traduções mais ou menos boas. E quando se falava no meu nome, acrescentava-lhe Berlim Alexanderplatz. Mas o meu caminho estava longe do seu termo.

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Cronologia de Alfred Döblin



1878: Filho de Max Döblin e Sophie Freudeheim, Alfred Döblin nasce a 10 de agosto, em Stetting (que nessa época é uma cidade prussiana – a partir de 1945 passa à Polônia).

1888: Max abandona a família e vai para os Estados Unidos com uma moça vinte anos mais nova do que ele. Sophie, Alfred e mais seus quatro irmãos se mudam para a parte leste de Berlim, passando por um período de grandes dificuldades financeiras.

1905 - 1911: Conclui a faculdade de medicina. Atua como médico assistente em hospitais e sanatórios, até se especializar como psiquiatra. Também escreve artigos e contos que são publicados na revista expressionista Der Sturm.

1912: Döblin se casa com a estudante de medicina Erna Reiss, com quem terá quatro filhos.

1913: Publica a coletânea de contos Die Ermordung einer Butterblume (O Assassinato de um Dente-de-Leão).

1924: Torna-se presidente da Associação de Escritores Alemães.

1929: Publica seu maior sucesso, Berlim Alexanderplatz.

1933: Com a tomada do poder pelos nazistas, Döblin, sua mulher e filho mais novo partem para a Suíça e depois para a França.

1936: Döblin adquire cidadania francesa.

1940: Com a chegada de tropas nazistas à França, Döblin e sua família migram para a Espanha e depois para Portugal. De lá, vão para os Estados Unidos. Döblin se instala na cidade de Los Angeles, Califórnia, e começa a trabalhar como roteirista para a Metro Goldwyn Mayer.

1941: Döblin, que havia nascido em uma família judia, converte-se ao catolicismo.

1945: Döblin volta a Paris. Depois, torna-se oficial de cultura do governo francês em Baden-Baden, na Alemanha.

1956: Publica seu último romance, Hamlet oder Die lange Nacht nimmt ein Ende (Hamlet ou A longa noite chega ao fim).

1957: Bastante enfermo com o mal de Parkinson, Döblin se interna numa clínica em Freiburg. Aos 79 anos, morre na cidade vizinha, Emmendigen, em 26 de junho.

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Bibliografia de Alfred Döblin
disponível em português

Die Ermordung einer Butterblume
(O Assassinato de um Dente-de-Leão)
Reunião de contos, publicada em 1913. O conto que dá título ao livro foi traduzido para o português por Marcelo Backes e integra a antologia Escombros e caprichos – o melhor do conto alemão no século XX, L&PM, 2004.

Berlin Alexanderplatz. Die Geschichte vom Franz Biberkopf
(Berlim Alexanderplatz. A História de Franz Biberkopf)
Este “romance de metrópole”, publicado em 1929, é a obra mais importante e mais conhecida do autor. Foi traduzido para o português pelas Publicações Dom Quixote, em 1992, e pela Editora Rocco, em 1995.

Der historische Roman und wir
(O Romance Histórico e Nós)
Artigo publicado em Moscou no ano de 1938. Foi traduzido para o português por Marion Brepohl de Magalhães e pode ser encontrado na Internet em formato PDF.


Schicksalsreise
(Viagem ao Destino)
Publicado em 1949, é um relato autobiográfico sobre o período em que Döblin viveu exilado. Foi traduzido por Sara Seruya para as Edições Asa, em 1996.



Sobre Alfred Döblin

BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Brasiliense, 1994.

DOLLENMAYER, David B. The Berlin Novels of Alfred Döblin: Wadzek's Battle with the Steam Turbine, Berlin Alexanderplatz, Men without Mercy and November, 1918. Berkeley. University of California Press, 1988.

BERNHARDT, Oliver. Alfred Döblin. Deutscher Taschenbuch Verlag, 2007.


Na Internet

Sociedade Internacional Alfred Döblin: www.alfred-doeblin.de

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