11 de nov. de 2012

Tamo junto. O mago e eu. Meu conto “Casca-Grossa”, um dos seis textos vencedores do concurso de contos das Livrarias Curitiba, foi publicado este mês na edição da revista Ler & Cia, que traz Paulo Coelho na capa. Pra conferir, clica aí. http://www.livrariascuritiba.com.br/images/Revista/nov-dez/index.html

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19 de fev. de 2011

Literatura)))
Uma seleção de reportagens sobre literatura, publicadas no jornal CORREIO*:


João Ubaldo, 70tão. Leia por aqui também

Anjos da Desolação vale a leitura... Ontem à noite, sonhei que era Jack Kerouac... E no box sobre os filmes beats, dicas do Mário Bortolotto

Bora ler o Caderno Manchado de Vinho, do Buk, que também não tem erro.

João do Rio. Biografia de João Carlos Rodrigues conta tudo sobre a vida desse mestre do jornalismo literário.

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28 de fev. de 2010

Especial)))
W.Rio Apa
85 anos, em plena atividade
O escritor Wilson Rio Apa, aos 85 anos, continua na companhia do mar e das letras, duas de suas maiores paixões. O ex-guru de Cristovão Tezza trabalha agora em um ensaio sobre os mitos culturais

Aos 85 anos, completos no dia 5 de fevereiro, o homem que colocou o litoral paranaense no mapa da literatura universal continua escrevendo. Diariamente em sua casa, na praia da Pinheira, em Florianópolis, o escritor Wilson Rio Apa se dedica a compor novas páginas de um livro de ensaios intitulado Mitos Culturais. “Nesse livro eu desvendo o cérebro, o imaginário e o próprio eu. Tanto que o livro ia se chamar inicialmente: ‘Eu? Eu quem?’ ”, explicou Rio Apa, em uma entrevista concedida a este repórter por telefone, no finalzinho de 2009.

Concluindo que o primeiro nome do livro não era dos melhores, Rio Apa resolveu então batizá-lo de Mitos Culturais, visto que nessa obra ele também fala sobre as funções da mitologia para a humanidade. Nietszche, Schoppenhauer, Jung e Eduard Osborne são alguns autores que Apa utilizou como referência para o desenvolvimento de seu ensaio. “Provavelmente vai ser o meu último livro”, anuncia ele, que já escreveu mais de 30 obras, entre romances, contos, peças de teatro e ensaios.

No momento, o escritor também procura uma editora para publicar o trabalho. E não precisa ser das grandes, diz Rio Apa. Basta que a edição fique boa e que a capa e o projeto gráfico fiquem a cargo do pintor e amigo Cláudio Kambé. “A preocupação de ser editado por editoras grandes já passou faz tempo”, lembra ele, que já foi editado pela José Olympio e pela Brasiliense. “As grandes queriam que eu me curvasse à vontade delas, queriam que eu fizesse literatura infantil. Além disso, o autor para elas precisa estar em evidencia, na mídia, para ser visto e lembrado, e eu nunca estive disposto a isso.”

A gênese de um escritor mítico
O homem que passou a maior parte da sua vida próximo ao mar, em meio a pescadores e gente simples, nasceu longe da água salgada, na capital São Paulo, vindo de uma família abastada e tradicional, que depois se instalaria em Curitiba. “Meu pais eram burgueses e mal me topavam. Mas é verdade que me ajudaram economicamente”, conta ele hoje. Se dependesse dos desígnios do pai, o desembargador Arthur Galvão do Rio Apa (que por sua vez descendia do Barão do Rio Apa, ministro de guerra no governo de Floriano Peixoto), o escritor manteria um vida burguesa padrão, assumindo também uma carreira jurídica.

Por algum tempo, o escritor até tentou agradar a família nesse sentido, bacharelando-se em direito, em 1949, pela Universidade Federal do Paraná. Mas, depois de formado, decidiu fazer o que realmente queria: correr o mundo como marinheiro. Wilson Rio Apa passaria então dois anos seguindo rotas do oriente e do ocidente a bordo de um navio. Na volta ao Brasil, retomou uma carreira jornalística já iniciada nos tempos de estudante. Nessa época, porém, seus textos se transformaram em relatos de experiências no mar, que prosseguiram pela costa brasileira, em embarcações capitaneadas pelo próprio escritor.

As aventuras seriam muitas, dignas de um Joseph Conrad. Rio Apa chegou a ficar um mês sozinho em uma ilha deserta no litoral do Paraná, vivência que seria transposta em uma série de textos sob o título de Experiências com a Solidão. Mais tarde continuaria navegando e passando temporadas em ilhas como a dos Jererês, e a ilha das Cobras. Uma de suas experiências mais intensas foi o naufrágio de seu barco em Abrolhos, o que quase lhe custou a vida.

Na sequência, Rio Apa se tornaria líder, tanto de uma cooperativa de pescadores e agricultores, como de uma comunidade artística em Antonina. Como teatrólogo, no final dos anos 60, passa a organizar uma série de peças em Curitiba e no litoral, a exemplo das montagens de o Templo das 7 Confissões, As Fúrias, e da Paixão segundo todos os homens, a qual foi encenada primeiramente em Alexandra, município vizinho a Paranaguá, e depois e em Florianópolis.

Paralelamente, nesse período Apa começa a escrever algumas de suas principais obras: o livro de contos No Mar das Vítimas, e o primeiro volume de uma tetralogia ficcional, intitulada Os Vivos e os Mortos. Nessas obras, o escritor produziu literatura da melhor qualidade, utilizando como base todo o universo do povo caiçara, algo sem precedentes na história da literatura paranaense.

Já no fim da década de 70, Apa se muda para Florianópolis. Desde então, muitos de seus pensamentos ganham a forma de ensaios, assim como ele também passa a editar contos em formato de jornal. Por volta do ano 2000, torna-se editor de um fanzine anarquista chamado Clã-destino, recebendo colaborações de jovens de todo o Brasil. Apa seguiu viajando pelo país em contato com comunidades alternativas - em eventos do Enca (Encontro Nacional das Comunidades Alternativas) - até alguns anos atrás. Mas parou com as viagens, segundo ele, um tanto desiludido com o que andava encontrando. “Pensei que essa juventude estaria mais adequada aos tempos atuais. Buscar a natureza é algo válido, mas ficar nisso não basta. Para transformar a sociedade é preciso ir além, e isso não estava acontecendo.” Agora, Apa confessa que anda mais caseiro, passando seus dias a caminhar pela Pinheira, entretido com cachorros e sabiás, e escrevendo.

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Por que W. Rio Apa é importante, na opinião do professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Paraná Édison Costa.

Francofonia - O que você destaca na produção literária de Wilson Rio Apa?
Édison Costa - O grande trabalho dele na área da ficção foi a tetralogia Os vivos e os mortos. Rio Apa desenvolve nesses quatro volumes uma narrativa fundadora: a saga mítica da luta do povo pela vida em terras do litoral paranaense. Os episódios e os personagens compõem um universo de experiências despojado mas vital, autenticamente popular. O tempo se estende desde o momento inicial de perfeita e completa integração à natureza até os anúncios cada vez mas insistentes de agressão ao meio ambiente chegados do exterior. Muito antes da atual onda de movimentos ecológicos Rio Apa estava atento para a importância desse tema.

Qual é o lugar de Os Vivos e os Mortos no quadro da literatura brasileira?
Rio Apa desenvolve a história de uma comunidade ainda não contaminada pela arficialidade da vida moderna. Retoma em espaço paranaense mitos universais recorrentes, por exemplo, na tradição judaico-cristã. Seu narrador é voz que soa, em ritmo e visão de mundo, como a do ancião que guarda a memória do passado na comunidade primitiva. É possível então aproximar Os vivos e os mortos de narrativas fundadoras como a Odisséia e Antigo Testamento. Seu livro propõe-se como narrativa de fundação em espaço e tempo paranaenses.

Qual é a importância da obra de Rio Apa?
O envolvimento ficcional com os povoadores primitivos do litoral paranaense e a ousada experiência que Rio Apa realiza no plano da linguagem definem uma visão de arte que, pelo menos neste Estado, nenhum outro autor parece ter abraçado posteriormente. Ele inscreve sua narrativa em território literário afim ao de Macunaíma e Viva o povo brasileiro, pois a reflexão que desenvolve sobre os fundamentos vitais da experiência humana não é estranha, em última análise, à reflexão sobre a identidade cultural brasileira presente nos livros de Mário de Andrade e João Ubaldo Ribeiro. De outro lado, em tempos de aquecimento global e de artificialização do viver, sua leitura faz-se cada vez mais indispensável.

Por que hoje em dia ele é um autor pouco conhecido?
Possivelmente porque nunca foi de seu interesse escrever best-sellers ou entrar para academias de letras. Entregando-se apaixonadamente ao seu projeto de criação literária e teatral, atraiu de imediato, porém, a atenção e o respeito do que havia de mais vivo e palpitante entre os jovens dos anos 70 e 80 do século passado, que dele também recebiam, reciprocamente, respeito e atenção.

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TEATRÓLOGO SINGULAR

A professora de literatura da UFPR e estudiosa do teatro Marta Morais da Costa também destaca a relevância da obra de Wilson Rio Apa para as artes cênicas. Marta é autora do livro O teatro de Wilson Rio Apa, em que analisa todas as peças de Apa produzidas nos anos 60 e 70. Escrita no fim dos anos 80, a obra permanece inédita, mas Marta afirma que pretende publicá-la no futuro.

Segundo a professora, Apa desenvolveu um teatro completamente diferente do que era feito na maior parte do país nos anos 60. “Enquanto a maioria dos artistas fazia um teatro realista ou político, ele explorava mais o lado simbólico, mítico e existencial, tentando esclarecer o papel do homem no universo.” A professora vê pontos de contato entre a obra de Rio Apa e autores como Eugène Ionesco e Jean Paul Sartre.

O fato de trabalhar com mitos e arquétipos e de propor encenações que estivessem muito próximas do público, fazendo peças em espaços alternativos, também aproxima Rio Apa de teatrólogos como Jerzy Grotowski e Eugênio Barba, diz Marta. “Nas suas montagens ao ar livre de A paixão segundo todos os homens ele movimentava toda uma comunidade. Era algo impressionante”, afirma ela, que esteve presente em algumas das encenações.

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12 de dez. de 2008

Literatura)))
A poesia da vida em um livro de contos
Em Para que as árvores não tombem de pé, Maria Célia Martirani apresenta uma prosa burilada e carregada de sentimento



Quinze anos depois de lançar seu primeiro livro de contos, o pouco divulgado Recontando (editora Edicon), Maria Célia Martirani, escritora paulistana, radicada em Curitiba, retorna ao cenário literário com a publicação de Para que as árvores não tombem de pé/ Affinché gli alberi non cadano in piedi, pela Travessa dos Editores.

O livro surge com 41 textos curtos e já nasce internacional em sua edição bilíngüe, português – italiano. A tradução ficou a cargo do professor Carlo Baldessari e da própria Maria Célia, que é também professora de italiano.

Em Para que as árvores não tombem de pé, Maria reafirma o domínio de sua arte. Como em Recontando, mais do que apresentar enredos mirabolantes, ela prioriza um trabalho de linguagem e explora ao máximo a sua capacidade de descrever os estados da alma de seus personagens.

Dessa forma, consegue criar textos que, mesmo sem grandes peripécias, apresentam elementos de tensão. Como o conto “Laranjas e Metal”. Externamente, nele nada acontece. Tem-se apenas um velho solitário diante de uma fruteira vazia. Porém, quando um narrador passa a revelar o que existe no íntimo desse ancião, eis que brotam conflitos que em um primeiro momento estavam invisíveis:

A vida toda, inteira e só a ela dedicara as chamas vívidas do sentimento “que arde sem doer”. Que acabou doendo, doeu muito e ainda doía, já que inevitável a partida. Que o deixassem, então estar quieto, remoendo sossegado seus silêncios... Urgia fechar-se à trepidação ruidosa dos veículos lá fora, para compenetrado, sentir a pulsação compassada e larga dos trens de dentro, estendendo-se roucos e lentos pelas infindáveis curvas de seu lembrar.

Outro exemplo é o “conto-parábola” que dá nome ao livro. Este narra simplesmente a trajetória de um pinheiro que, por sua rigidez excessiva, acaba tombando um dia. Mesmo com este enredo exíguo, ao seu modo, o conto oferece suspense, que é construído através de uma seqüência precisa de palavras, vírgulas e sinais de reticências empregados por Maria Célia.

A queda, sempre fatal. Nada que amenizasse o desalinho das copas verdíssimas, caindo em abandono. Susto, estremecimento... E aquele ruído surdo, compacto, fulminante... Assim caíam todas as nobres madeiras de lei, as de hirtos troncos, envergadura encorpada. Nelas havia uma beleza triste, até mesmo no tombo...

Ao leitor de primeira viagem que esteja muito apegado a textos secos e velozes, é bom avisar: quando ler Para que as árvores não tombem de pé, deixe a ansiedade de lado e embarque no ritmo de cada história. A prosa de Maria Célia Martirani é calma e tão certeira quanto a anaconda que deglute o malvado, no conto “O índio que estourou”.

Não conseguiu nem gritar, quando, abruptamente, uma jibóia viscosa e gigante lhe enroscou as pernas, derrubando-o na água. Estrangulou-o, numa tortura lenta e úmida. Triturou-lhe os ossos e passou a engoli-lo inteiro, devagar. Ainda era cedo e tinha todo tempo para ingerir suas carnes...

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Sobre a autora



Maria Célia Martirani nasceu a 21 de agosto de 1959, em São Paulo. Descendente de italianos, iniciou os estudos na língua de seus avós logo cedo, no tradicional Colégio Dante Alighieri. Hoje é doutora pela USP e dedica-se a pesquisas na área de literatura italiana e literatura comparada. No Brasil, é uma das maiores conhecedoras da obra do escritor Alessandro Baricco.

Morou por sete anos em São Miguel do Oeste (SC), onde atuou como professora de escola pública. Tal experiência, em meio rural, foi particularmente enriquecedora para a autora e se veria refletida em alguns contos de seu primeiro livro. Em 1989, Maria Célia se mudou para Curitiba, cidade em que reside até o momento.

Sua estréia na literatura se deu com Recontando, publicado em 1993 pela Edicon. Em 2008, lança nova reunião de histórias, intitulada Para que as árvores não tombem de pé, pela Travessa dos Editores. A edição sai em formato bilíngüe, português-italiano.


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Entrevista: Maria Célia Martirani

Francofonia – Você sente que há muita diferença entre a escrita de Recontando e Para que as árvores não tombem de pé? Quais são as diferenças e as afinidades desses dois livros?

Maria Célia Martirani – Acho que tanto meu primeiro livro, Recontando, como este segundo, Para que as árvores não tombem de pé, surgiram de minha necessidade de expressão, especialmente do que eu intuía ou lia, a partir dos seres e das coisas ao meu redor.

Nos dois casos, posso afirmar que sempre quis fazer prevalecer em mim o ouvido atento e o olhar aguçado para “recontar”, transfigurar a meu modo, as histórias que germinam o tempo todo em torno a nós (e pelas quais me deixo tocar).

Então, o que aproxima os dois livros é a idéia de um eixo ficcional, valorizando a dimensão narrativa inerente às coisas, aos seres, às situações. Porém, o segundo me trouxe uma liberdade maior, talvez uma soltura, quanto aos modos de narrar que eu não conhecia anteriormente, não só do ponto de vista temático, como também formal. Por exemplo, dei-me ao prazer de investir mais em narrativas, ora concisas (como “Esquina”), ora muito longas (como “Pro-Vocação”), de me deixar levar pela idéia da relativização do contar, a ponto de criar contos duplos ou triplos, que dialogam e se espelham (como “O Rosto da Página” e “Página sem Rosto”).

Francofonia – Por que você demorou tanto para publicar seu segundo livro?
Maria Célia Martirani – Porque não me sentia madura, nem forte o suficiente para fazê-lo. Gosto muito de citar uma frase de Guimarães Rosa, na qual acredito. Algo assim: a de que “os livros nascem quando as pessoas pensam... É necessário dedicar muito tempo a um pensamento. Daí seriam escritos livros melhores...” Acho que cada um precisa de um tempo interior (muito subjetivo e extremamente variável de indivíduo a indivíduo) de elaboração, para depois conseguir ter o fôlego necessário para a exposição, a publicação.

Francofonia – Em que período foram escritos os contos de Para que as árvores não tombem de pé?
Maria Célia Martirani – Comecei a esboçar alguns dos contos ainda em 2000, 2001, ou seja, há sete anos. Mas eu diria que o livro começou a “tomar corpo” mais efetivamente, a partir de 2004, quando comecei a viajar a São Paulo, semanalmente, devido ao curso de Pós Graduação na USP e me lembro que, naquela época, quase não conseguia ficar um só dia sem escrever.

Francofonia – Como surgem as suas histórias? Como costuma ser o seu processo criativo?

Maria Célia Martirani – Acredito que minhas histórias germinam, brotam da vida. Como já afirmei anteriormente, acho que tudo possui uma dimensão narrativa muito forte. O mundo fala conosco o tempo todo. É só parar para ouvir... E, depois, recontar... Minhas histórias surgem de situações muito simples, comuns, corriqueiras até... Mas o que conta, às vezes, é como isso tudo consegue “me provocar”, como isso se processa em mim.

Reconheço ser extremamente prazeroso, no árduo processo criativo, o imaginar, viajar, sem limites, por onde as rédeas da imaginação me conduzirem. Mas, o tempo todo, como uma espécie de professor exigente, há o trabalho disciplinar, o do quotidiano hábito de escrever e de colocar as tais rédeas soltas no papel, numa incessante carpintaria do texto.

Francofonia – Como surgiu a idéia de escrever contos duplos, como “O Rosto da Página” e “Página sem Rosto”, que se completam?
Maria Célia Martirani – A idéia dos “contos duplos” surgiram, porque eu sempre achei muito instigante, em arte, a idéia de criar variações em torno de um mesmo tema. Lembro, por exemplo, de alguns estudos de Volpi, aqueles famosos de várias possibilidades sobre o tema das bandeirinhas juninas ou de alguns exercícios para piano de Czerni, em que se mantem o eixo melódico, com pequenas nuances que dão um novo tom à composição final. No limite, ao escrever “O Rosto da Página” e “Página sem Rosto”, quis, num exercício lúdico, brincar com essas variações, com a relativização de dois pontos de vista sobre o mesmo tema: o drama de ser ou não ser personagem.

Francofonia – Certos contos seus podem ser visto como poemas? Você se considera poeta também?
Maria Célia Martirani – Muitos de meus leitores percebem, no que crio, traços do que se poderia chamar de “prosa poética”. Sinceramente não me considero poeta, mas apenas alguém que, como aconselha Drummond, gosta de se atrever a “mergulhar surdamente no reino das palavras” e que, roseanamente, mantém uma certa reverência para com o “canto e a plumagem das palavras”...

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6 de mar. de 2008

+ Literatura
Um pretexto para falar de Döblin
2007 foi o ano do cinqüentenário de morte do escritor alemão Alfred Döblin

Alfred Döblin (1878 – 1957): um escritor, segundo Günther Grass, “de igual mérito ou maior do que Thomas Mann”.

Como vocês bem sabem, comemorar tantos anos de morte ou até da hipotética vida de um artista - “se Zequinha estivesse vivo, completaria hoje 100 anos...” - é sempre um gancho jornalístico. Idiota, muitas vezes, principalmente quando não se acrescenta nada de novo sobre o falecido.

Portanto, é com uma certa dose de vergonha que farei uso desse combalido artifício neste texto. Mas como não tenho notícia de novas traduções para a obra do escritor alemão Alfred Döblin, nem ouço falar de adaptações de seus livros para o cinema ou teatro, só me resta falar aqui do seu cinqüentenário de morte. No ano que passou, parece que ninguém, no Brasil, lembrou que Döblin faleceu no dia 26 de junho de 1957.

Ao longo de 79 anos de vida, este escritor, médico psiquiatra e intelectual escreveu mais de 30 livros e conquistou a admiração de conterrâneos como Bertolt Brecht, Walter Benjamin, Kurt Tucholsky e Günther Grass. Este último chegou a criar um prêmio literário com o seu nome, o Alfred Döblin Preis, mantido pela Academia de Arte de Berlim.

Traduções escassas
Para aqueles que nunca ouviram falar de Alfred Döblin e talvez depois pretendam procurar por seus livros, é bom que se avise: o que existe de sua obra em português dá para se contar nos dedos.


Resume-se ao ensaio O Romance Histórico e Nós (Der historische Roman und wir), ao conto O Assassinato de um Dente-de-Leão (Die Ermordung einer Butterblume), ao relato autobiográfico Viagem ao Destino (Schicksalsreise) e ao romance Berlim Alexanderplatz, sua principal obra. (Saiba mais sobre esses textos em “Bibliografia disponível em português”).

E não pensem que as traduções de Döblin são escassas só em língua portuguesa. Basta pesquisar na Internet e no catálogo de bibliotecas do Instituto Goethe para se constatar que em outros idiomas, como inglês e espanhol, também o autor é pouco traduzido.

Eis porque estudar alemão, apesar de tarefa hercúlea, tem suas vantagens. Só assim para se conhecer a fundo todo o universo criativo de Alfred Döblin.

*Publicada na Revista Mediação nº10

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O indivíduo no caos da metrópole
Berlim Alexanderplatz apresenta os descaminhos de um ex-presidiário que luta para sobreviver na selva da cidade


Cena de Berlim Alexanderplatz na versão de Fassbinder.

Felizmente, temos a principal e mais conhecida obra de Alfred Döblin traduzida para o português – na versão de Lya Luft, para a Editora Rocco, e na de Sara e Teresa Seruya para as Publicações Dom Quixote.

Publicado em 1929, em plena República de Weimar, o romance Berlim Alexanderplatz apresenta a saga do ex-presidiário Franz Biberkopf, que depois de solto procura reconstruir sua vida e andar nos eixos.

Nessa história, o autor conseguiu reproduzir com perfeição a atmosfera caótica de uma grande metrópole. Franz está sempre em meio a uma multidão de outros personagens tão humildes e amaldiçoados quanto ele, e um narrador onisciente (sempre irônico!) faz questão de incorporar ao seu discurso – que mescla tanto o alemão padrão como o dialeto berlinense – uma avalanche de informações esdrúxulas, oriundas das mais diversas fontes, como jornais, anúncios ou textos científicos.

Para se ter uma idéia, na passagem que descreve como Franz matou sua ex-mulher com uma batedeira, o narrador chega a invocar a lei de Newton de ação e reação para explicar tal fato. Por tudo isso, o livro foi comparado em ousadia ao Ulysses (1922) de James Joyce.

Adaptações
Grande fã de Berlim Alexanderplatz, o diretor alemão Reiner Werner Fassbinder fez uma adaptação do romance para a TV, em 1980, com 15 horas de duração. Antes disso, o livro já tinha sido adaptado para o cinema com um roteiro do próprio Alfred Döblin e dirigido por Phil Jutzi em 1931 – entretanto com duração (o filme tem uma hora e meia) e resultado bem mais modestos.

Em 2005, foi a vez do livro virar peça de teatro. Frank Castorf, diretor da companhia alemã Volksbühne, encenou a obra na Schlossplatz, praça que fica ao lado da Alexanderplatz, em Berlim.


*

Trecho do posfácio de Alfred Döblin para uma reedição de Berlim Alexanderplatz em 1955. (Tradução de Sara Seruya e Teresa Seruya)



(...) Pensava ele [Franz Biberkopf], acabado de sair da cela, que era possível iniciar uma vida novinha em folha, fresca, foliona, livre. Mas lá fora nada tinha mudado, e ele próprio continuava o mesmo.

Como havia de sair dali um novo resultado? Manifestamente, só na medida em que um dos dois fosse destruído, ou Berlim ou Franz Biberkopf. E como Berlim se manteve como era, coube a Franz modificar-se.

Portanto, o tema mais fundo reza: o sacrifício é o caminho, oferecer-se a própria pessoa em sacrifício. E bem cedo brotam no livro, também para quem sabe ler, os temas do sacrifício: o bíblico Abraão está para sacrificar o filho único ao Deus supremo, somos conduzidos ao matadouro no Leste da cidade para assistir à morte de animais.

Franz Biberkopf queria o bem, mas o que era isso mais do que uma palavra? Faço-o passar pela ala dos açoites, as desgraças sucedem-se: Biberkopf à caça do Bem, uma caça de olhos fechados, tendo um cavalo desenfreado por baixo, quando é que os dois, cavalo e cavaleiro, irão partir o pescoço? No fim parecem ter partido o pescoço.

Mas quando Franz vai parar ao manicômio, alguma coisa, apesar de tudo, mudou nele. O sacrifício consumou-se sem o mínimo ruído. Como consta do final, ei-lo porteiro duma fábrica, vivo mas escangalhado, a vida apoderou-se violentamente dele.

Este livro, cuja publicação em folhetim foi recusada pelos dois mais importantes jornais liberais de Berlim, veio a sair em folhetim no velho Frankfurter Zeitung, causando já na altura grande sensação.

Depois de publicado, Berlim Alexanderplatz revelou-se best-seller, seguindo-se-lhe edições atrás de edições e traduções mais ou menos boas. E quando se falava no meu nome, acrescentava-lhe Berlim Alexanderplatz. Mas o meu caminho estava longe do seu termo.

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Cronologia de Alfred Döblin



1878: Filho de Max Döblin e Sophie Freudeheim, Alfred Döblin nasce a 10 de agosto, em Stetting (que nessa época é uma cidade prussiana – a partir de 1945 passa à Polônia).

1888: Max abandona a família e vai para os Estados Unidos com uma moça vinte anos mais nova do que ele. Sophie, Alfred e mais seus quatro irmãos se mudam para a parte leste de Berlim, passando por um período de grandes dificuldades financeiras.

1905 - 1911: Conclui a faculdade de medicina. Atua como médico assistente em hospitais e sanatórios, até se especializar como psiquiatra. Também escreve artigos e contos que são publicados na revista expressionista Der Sturm.

1912: Döblin se casa com a estudante de medicina Erna Reiss, com quem terá quatro filhos.

1913: Publica a coletânea de contos Die Ermordung einer Butterblume (O Assassinato de um Dente-de-Leão).

1924: Torna-se presidente da Associação de Escritores Alemães.

1929: Publica seu maior sucesso, Berlim Alexanderplatz.

1933: Com a tomada do poder pelos nazistas, Döblin, sua mulher e filho mais novo partem para a Suíça e depois para a França.

1936: Döblin adquire cidadania francesa.

1940: Com a chegada de tropas nazistas à França, Döblin e sua família migram para a Espanha e depois para Portugal. De lá, vão para os Estados Unidos. Döblin se instala na cidade de Los Angeles, Califórnia, e começa a trabalhar como roteirista para a Metro Goldwyn Mayer.

1941: Döblin, que havia nascido em uma família judia, converte-se ao catolicismo.

1945: Döblin volta a Paris. Depois, torna-se oficial de cultura do governo francês em Baden-Baden, na Alemanha.

1956: Publica seu último romance, Hamlet oder Die lange Nacht nimmt ein Ende (Hamlet ou A longa noite chega ao fim).

1957: Bastante enfermo com o mal de Parkinson, Döblin se interna numa clínica em Freiburg. Aos 79 anos, morre na cidade vizinha, Emmendigen, em 26 de junho.

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Bibliografia de Alfred Döblin
disponível em português

Die Ermordung einer Butterblume
(O Assassinato de um Dente-de-Leão)
Reunião de contos, publicada em 1913. O conto que dá título ao livro foi traduzido para o português por Marcelo Backes e integra a antologia Escombros e caprichos – o melhor do conto alemão no século XX, L&PM, 2004.

Berlin Alexanderplatz. Die Geschichte vom Franz Biberkopf
(Berlim Alexanderplatz. A História de Franz Biberkopf)
Este “romance de metrópole”, publicado em 1929, é a obra mais importante e mais conhecida do autor. Foi traduzido para o português pelas Publicações Dom Quixote, em 1992, e pela Editora Rocco, em 1995.

Der historische Roman und wir
(O Romance Histórico e Nós)
Artigo publicado em Moscou no ano de 1938. Foi traduzido para o português por Marion Brepohl de Magalhães e pode ser encontrado na Internet em formato PDF.


Schicksalsreise
(Viagem ao Destino)
Publicado em 1949, é um relato autobiográfico sobre o período em que Döblin viveu exilado. Foi traduzido por Sara Seruya para as Edições Asa, em 1996.



Sobre Alfred Döblin

BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Brasiliense, 1994.

DOLLENMAYER, David B. The Berlin Novels of Alfred Döblin: Wadzek's Battle with the Steam Turbine, Berlin Alexanderplatz, Men without Mercy and November, 1918. Berkeley. University of California Press, 1988.

BERNHARDT, Oliver. Alfred Döblin. Deutscher Taschenbuch Verlag, 2007.


Na Internet

Sociedade Internacional Alfred Döblin: www.alfred-doeblin.de

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10 de fev. de 2008

+ Leituras
Walking on the wild side,

com William Burroughs


Junto com On The Roud (publicado em 1957), de Jack Kerouac, Junky (1953) é um dos marcos da literatura beat.

Foi ao som de “Walk on the wild side”, que eu terminei minha leitura de Junky, na edição comemorativa dos 50 anos da obra (tradução de Ana Carolina Mesquita, Ediouro, 2005, 286 págs.). Fazia tempo que eu estava para ler esse livro.

Enfim, pude constatar que ele realmente não é nada imperdível. Porém, sua narrativa – extremamente simples e que não busca trazer grandes surpresas nem desenvolver personagens – acabou me agradando mais do que eu esperava.

Burroughs se limita mesmo a descrever como começou e se desenvolveu a sua relação com as drogas, intercalando essas suas memórias com uma série de pequenas reflexões. Tirante isso, pela objetividade com que o autor descreve as situações mais bizarras e pelo distanciamento emocional diante delas, o texto adquire um formato que se aproxima do jornalístico.

Burroughs não dramatiza, não romanceia. Mantem-se cool o tempo todo e ainda faz diversas tiradas sarcásticas, como esta:

No French Quarter, há vários bares gays tão lotados que toda noite as bichas vazam nas calçadas. Qualquer lugar cheio de bichas me dá arrepios. Elas se balançam como marionetes controladas por fios invisíveis, elétricas na atividade repulsiva da negação de tudo aquilo que é vivo e espontâneo. (pág. 136)

O detalhe é que Burroughs era homossexual e vivia freqüentando esses bares.

Outro mérito do autor são as diversas análises que ele faz sobre a sua época. Burroughs reflete sobre as políticas antidrogas nos Estados Unidos – que ele considera corruptas e hipócritas –, denuncia o sistema de saúde que não privilegia os viciados, desmente conceitos, segundo ele “enganosos”, sobre os narcóticos, faz diagnósticos contundentes sobre aspectos sócio-econômicos de certas regiões do país e, por fim, apresenta um pouco de sua visão sobre o movimento hipster/beat que estava se formando.

Parece faltar energia e curtição espontânea da vida dos jovens hipsters. A simples menção de fumo ou de droga os deixa em estado frenético, como se houvessem acabado de se injetar cocaína. Pulam por todos os lados e gritam: “Demais! Muito louco! Cara, vamos lá! Vamos chapar”. Mas depois de um pico afundam na cadeira como bebês resignados, esperando que a vida lhes traga a mamadeira novamente. (pág. 223)

Palavras de um veterano na arte da malandragem.

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1 de fev. de 2008

+ Leituras
Finos no tamanho e na prosa

“No verão as pessoas procuram leituras leves, como bolachas de chope, rótulos de bronzeador e romances policiais.”
(Luís Fernando Veríssimo, no conto O Caso Ló )

Aproveitando o mote de Luís Fernando Veríssimo, eis aqui dois livros finos - no tamanho e na prosa - que sugiro a vocês como boas leituras de verão: os contos de Ronda Noturna, de Cadão Volpato, e a novela Um Crime Delicado, de Sérgio Sant'Anna.


Ronda Noturna (Iluminuras, 1995, 95 págs.)

Os cinco contos deste primeiro livro de Cadão Volpato (que além de escritor é jornalista e músico) podem ser lidos de uma sentada. Descrevê-los, porém, é um tanto difícil. Muita coisa acontece neles, mas nada de realmente conclusivo. São histórias que não possuem bem um começo. Elas já começam pelo meio, em desenvolvimento, e terminam sem apresentar uma conclusão.

Depois que o seu pai morre, como será o futuro de Lotte, a garota germanófila cujo nome dá título a um conto? Não há como saber. Em A Sagrada Família é um Imenso Dente Podre, por exemplo, somos levados a conhecer lembranças de infância de um narrador, lembranças que são trazidas à tona com vivacidade e, algumas páginas depois, são interrompidas, sem mais nem menos.

O mesmo acontece em Constelação, em que temos a história de um grupo de pessoas que assalta um banco, fingindo ser da quadrilha de Carlos Marighuella. O conto termina no meio de uma fuga, até então bem sucedida, para Santos. Já em O Professor da Noite, Cadão faz um recorte do decadente cotidiano de um professor trotskista, enquanto em Ronda Noturna temos trechos da vida de um heroinômano que, em crise com a esposa no Brasil, vai passar uma temporada na Holanda, na casa de um amigo.

Se por um lado a ausência de finais de impacto nesses contos pode desagradar certas pessoas, a riqueza de detalhes descritivos que Cadão apresenta em seu texto e a completa imprevisibilidade no desenvolvimento desses enredos faz com que a leitura deste livrinho seja deveras instigante e prazerosa.



Um Crime Delicado (Companhia das Letras, 1997, 132 págs.)

Nesta novela (que em 2005 virou filme dirigido por Beto Brant) do carioca Sérgio Sant’Anna, o narrador é um crítico de teatro chamado Antônio Martins, um sujeito excêntrico e de meia-idade, que é acusado de um crime e, portanto, escreve um livro a fim de fornecer as suas versões sobre os fatos.

Nesse sentido a obra se aproxima da novela O Túnel (1948), do argentino Ernesto Sábato, em que um pintor narra como assassinou a única mulher que compreendia os seus quadros. Todavia, diferente de O Túnel, Um crime Delicado não é nem um pouco trágico ou sério. No fundo é apenas uma comédia intelectual amarrada pelo mistério do suposto crime, que não vou revelar aqui.

Tudo bem que eu esperava mais da personagem Inês, a inusitada musa por quem o crítico se apaixona. Gostaria igualmente que os personagens da “gangue” do pintor Vitório Brancatti fossem mais bem desenvolvidos, assim como o processo criminal movido contra o crítico poderia ter um desdobramento maior... Enfim, o desfecho da história toda poderia ser melhor, mas a leitura do livro vale pelo humor refinado – que surge quando o narrador assume as suas fraquezas e o seu lado patético – e pelas interessantes reflexões sobre o ofício de um crítico.

“(...) Expliquei que o crítico é um tipo muito especial de artista, que não produz obras mas vai apertando o cerco em torno daqueles que o fazem, espremendo-os, para que eles exijam de si sempre mais e mais, na perseguição daquela obra imaginária, mítica, impossível, da qual o crítico seria co-autor.”

(Trecho de Um Crime delicado, pág. 28)

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5 de dez. de 2007

+ Leituras Recentes
Propagando Malamud
Em O Barril Mágico, como nas demais obras do autor, o ser humano está sempre diante de alguma provação


Em 2006, a editora Record relançou o romance O Faz-tudo. Este ano foi a vez dos contos de O Barril Mágico, livro até então inédito no país.

“’Vocês já leram O Barril Mágico de Malamud’”?, tenho perguntado a meus amigos. Quando alguns sacodem a cabeça dizendo que não, fico feliz por não me incluir entre eles”, escreveu a autora Jumpa Lahiri, na introdução de O Barril Mágico.

Como não recomendar Bernard Malamud (1914 – 1986)? Apesar de não ser tão conhecido no Brasil, este é sem dúvida um dos maiores escritores da literatura norte-americana e mundial.

A primeira vez que ouvi falar dele foi através de uma citação feita por Jamil Snege em sua autobiografia Como eu se fiz por si mesmo. Depois disso procurei pelo autor e me surpreendi com o que encontrei. Resultado: li um bom tanto de seus livros e passei a divulgá-los sem pudor a todo mundo que conheço.

Esse ano, por exemplo, dei de presente a minha namorada os contos de O Nu despido (Idiots First, 1963) e regalei uma amiga com o romance A Graça de Deus (God´s Grace, 1982). Como eu também merecia um presente, adquiri então O Barril Mágico (The Magic Barrel), obra que foi relançada em 2007 pela editora Record.

Publicado originalmente em 1958, O Barril Mágico foi a primeira coletânea de contos de Malamud, e logo que saiu ganhou o prêmio National Book Award.

Em todos os 13 textos d'O Barril nos deparamos com gente simples, enfrentando as mais diversas provações. É o zelador que não consegue saldar uma dívida, é o jovem escritor à beira da loucura por falta de inspiração, ou o aposentado que luta para não ser despejado.

Além disso, a maioria desses personagens são judeus – Malamud era dessa religião – ou sofredores natos. Na verdade, para Malamud todo homem era judeu, no sentido em que todo homem é um sofredor tal qual esse povo.

A sensibilidade com que Malamud conduz suas histórias, a prosa clara, envolvente, salpicada de humor, são qualidades que você encontrará em O Barril Mágico como em qualquer outra obra do autor.



Filho de imigrantes russos judeus, Bernard Malamud nasceu no bairro do Brooklin, em Nova York, a 26 de abril de 1914. Foi escritor e professor de inglês. Escreveu sete romances, entre eles The Natural (inédito no Brasil, escrito em 1952), O Ajudante (The Assistent, 1957) e Os Inquilinos (The Tenants, 1971), e publicou cinco coletâneas de contos. Retratos de Fidelman (Pictures of Fidelman, 1969) e Rembrandt’s Hat (inédito, 1974), estão entre elas. Ganhou duas vezes o National Book Award por O Barril Mágico e pelo romance O faz-tudo (The Fixer,1966), e uma vez o prêmio Pulitzer por O faz-tudo. Faleceu no dia 18 de março de 1986.

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14 de nov. de 2007

+ Literatura
Dono de um talento tão grande quanto o seu ego,
escritor Norman Mailer morre aos 84 anos

Por Charles MacGrath, do www.nytimes.com
Tradução: Franco Caldas Fuchs

Norman Mailer, o combativo, controverso e desinibido romancista, que foi mais longe do que qualquer outro escritor de sua geração nas letras americanas, morreu ontem (10) cedo em Manhattan. Ele tinha 84 anos. Segundo a família, a causa da morte foi uma falência renal aguda.

O senhor Mailer despontou na cena literária em 1948 com “Os Nus e os Mortos”, um romance parcialmente autobiográfico sobre a Segunda Guerra Mundial, e por seis décadas raramente esteve longe do centro das atenções.

Ele publicou mais de 30 livros, incluindo romances, biografias e escritos não-ficcionais, e ganhou duas vezes o Prêmio Pulitzer por “Exércitos da Noite” (1968) – o qual também lhe valeu o National Book Award – e “A Canção do Carrasco” (1979).

Ele também roteirizou, dirigiu e atuou em diversos filmes de baixo orçamento, ajudou a fundar o jornal The Village Voice e por muitos anos foi um convidado freqüente em talk-shows na televisão, onde emitia opiniões provocantes – algumas vezes com coerência, outras não.

O senhor Mailer pertencia à velha escola literária que considerava um romance como uma aventura empreendida por personagens heróicos com egos a se confrontar. Ele foi claramente o escritor mais ambicioso de sua era e via a si mesmo em competição não apenas com seus contemporâneos, mas com Tolstoi e Dostoievski.

Dos escritores, ele foi o menos tímido e o que menos temeu correr riscos. Ele corajosamente procurou a atenção pública e a publicidade inevitavelmente o seguia nas poucas ocasiões em que ele tentou evitá-la. Suas orelhas grandes, peito inflado, admiráveis olhos azuis e suas madeixas eriçadas – de um negro escuro no início e cor de neve ultimamente – fizeram dele alguém instantaneamente reconhecível, uma celebridade bem antes que a maioria dos autores fossem postos em evidência.
Em diferentes fases da sua vida o senhor Mailer foi um prodigioso bebedor e usuário de drogas, um mulherengo, um homem de família devotado, um político em potencial que concorreu à prefeitura de Nova York, um hipster existencialista, um militante anti-guerra, um opositor à liberação feminina e um irascível debatedor sobre todos os assuntos, que com a menor provocação não hesitava em convidar seu oponente para uma queda de braço ou uma troca de socos. Sempre que encontrava um crítico ou um resenhista, mesmo que este fosse amigável, Mailer cerrava os punhos e fazia pose de luta.

Gore Vidal, com quem ele freqüentemente discutia, uma vez escreveu: “Mailer está sempre para nos fazer uma de suas revelações ou para nos dizer algo que simplesmente precisamos saber. Toda vez que fala ele precisa se tornar mais ousado, mais barulhento; precisa carregar nas tintas e levantar mais bandeiras estúpidas.

Ainda sim, de todos os meus contemporâneos eu guardo a maior afeição por Norman como uma força e um artista. Ele é um homem cujos erros, embora numerosos, acrescentam a ele ao invés de diminuir a soma de suas conquistas.”

O Senhor Mailer foi um trabalhador incansável que, até pouco antes de morrer, estava escrevendo uma seqüência para o seu romance de 2007, “O Castelo na Floresta”.

Se alguns de seus livros escritos rapidamente e sob pressão por questões financeiras não eram tão bons como ele esperava, nenhum deles foi irrelevante ou deixou de levar a sua marca distinta. E se ele nunca realmente conseguiu criar o que ele chamava de “o grande romance americano”, não foi por falta de tentativa.

Ao longo do caminho, ele transformou o jornalismo americano ao introduzir nele algumas das técnicas do romancista e ao colocar no centro da reportagem um personagem brilhante, saboroso e maior que a vida, o qual era ninguém menos do que o próprio Norman Mailer.

Um filho paparicado

Norman Kingsley Mailer – ou, em hebraico, Nachem Malek – nasceu em Long Branch, Nova Jérsei, em 31 de janeiro de 1923. Seu pai, Isaac Barnett Mailer, conhecido como Barney, era um emigrado sul africano de roupas vistosas – ele às vezes usava polainas e caminhava com uma bengala – e um péssimo homem de negócios.

A figura dominante na família era a mãe, Fanny Schneider, que vinha de uma família de Long Branch. O pai de Fanny tinha uma mercearia e era o rabi não-oficial da cidade. Embora outra criança, Bárbara, tenha nascido em 1927, Norman continuou sendo o favorito de sua mãe.

Quando Norman tinha 9 anos, sua família se mudou para Crown Heights, no Brooklyn. Paparicado e bem dotado intelectualmente, obteve êxito na escola e no colégio, o qual concluiu em 1939.

Aos 16 anos entrou como calouro em Harvard, onde apareceu vestindo uma jaqueta marrom, calças listradas de verde e azul e sapatos brancos de couro. Colegas lembram dele como um atrevido orelhudo que se gabava de suas experiências sexuais. (Que eram poucas, na verdade. Uma falha que ele rapidamente buscou corrigir.)

O senhor Mailer pretendia se formar em engenharia aeronáutica, mas no segundo ano de faculdade ele se apaixonou pela literatura. Passou o verão lendo e relendo o “Studs Lonigan” de James T. Farell, “Vinhas da Ira” de John Steinbeck e “U.S.A” de John Dos Passos, e começou a escrever um texto de três mil palavras por dia, acreditando que assim poderia eliminar a má escrita de seu corpo.

Em 1941 ele estava suficientemente purificado para vencer o prêmio Story Magazine de melhor conto escrito por um universitário.

O senhor Mailer se formou em Harvard em 1943, determinado a seguir uma carreira literária, e começou um romance (nunca publicado) de cem páginas sobre um manicômio, enquanto esperava para ser convocado para a guerra. Foi chamado para o Exército na primavera de 1944, depois de se casar com Bea Silverman em janeiro, e então foi enviado às Filipinas.
O senhor Mailer presenciou poucos combates na guerra e terminou sua carreira militar como cozinheiro no Japão ocupado pelos americanos. Mas sua experiência de guerra, em particular uma única patrulha feita na ilha de Leyte, tornou-se o material bruto para “Os Nus e os Mortos”, livro que o colocou no mapa.

O senhor Mailer escreveu o romance (que trata de um pelotão de 13 homens lutando contra os japoneses num atol do pacífico) em mais ou menos 15 meses, e este logo foi universalmente aclamado – a última vez que isso iria acontecer a Mailer. Alguns críticos situam o trabalho entre os melhores romances de guerra já escritos.

“Os Nus e os Mortos” vendeu 200 mil cópias em apenas três meses – um grande feito naqueles dias – e continua sendo o maior sucesso literário e comercial do senhor Mailer, mesmo sendo em parte obra de um aprendiz que deve muito de seus créditos a Dos Passos, Tolstoi e Farrell.

O senhor Mailer depois diria sobre isso: “Parte de mim pensava que era possivelmente o melhor livro escrito depois de ‘Guerra e Paz’. Por outro lado, eu também pensava: ‘eu não sei nada sobre o que é escrever. Sou virtualmente um impostor’”.

Ousando o desconhecido

Seu segundo livro, “Costa Bárbara” (1951), um romance político sobre, entre outras coisas, a luta entre capitalismo e socialismo, recebeu o que o senhor Mailer chamou de “possivelmente as piores resenhas a um romance sério nos últimos anos”. O terceiro livro, “Parque dos Cervos” (1955), em parte um relato ficcional dos problemas de Elia Kazan com o Comitê de Investigações de Atividades Anti-Americanas, teve um sucesso um pouco melhor, e pelo resto da década Mailer não escreveu mais nenhuma ficção.

Pelos anos cinqüenta ele vagou, freqüentemente bêbado ou chapado ou os dois, incorporando estranhas personas: britânico, irlandês, gangster, texano... Em 1955, junto com dois amigos, Daniel Wolf e Edwin Fancher, ele fundou o The Village Voice e, enquanto escrevia uma coluna para o jornal, começou a desenvolver o que se transformaria em sua marca registrada – um estilo ousado, poético, metafísico, shamanístico às vezes – além criar a sua própria filosofia hipster.

Era uma despretensiosa versão Greenwich Village do existencialismo, que argumentava que os negros e os músicos de jazz, especialmente, tinham vidas mais autênticas e melhores orgasmos. A mais famosa, ou infame, versão dessa filosofia foi o controverso artigo de 1957 intitulado “O Negro Branco”, que parecia endossar violência como um ato existencial e declarava que o assassinato de um dono de mercearia branco cometido por dois negros de 18 anos era um exemplo de se “ousar o desconhecido”.

Em novembro de 1960, o senhor Mailer esfaqueou a sua segunda esposa, Adele Morales, com um canivete, ferindo-a seriamente. Isso aconteceu no final de uma festa que anunciava a intenção do senhor Mailer em concorrer à prefeitura e, ele, como muitos de seus convidados, andara bebendo bastante. O senhor Mailer foi preso, mas sua esposa se negou a prestar queixa na delegacia. Foi solto depois de ter ficado em observação no Bellevue Hospital. O casamento terminou dois anos depois.

Somando tudo, o senhor Mailer foi casado seis vezes, contando um rápido matrimônio com Carol Stevens, com quem ele se esposou e se divorciou em alguns dias em 1980 para garantir legitimidade à filha deles, Maggie. Suas outras mulheres, além da senhorita Silverman e da senhorita Morales, foram Lady Jeanne Campbell, neta do Lord Beaverbrook, Beverly Rentz Bentley e Norris Church, com quem ele viveu até morrer.

Nos anos 70, o senhor Mailer se meteu em uma briga com feministas e militantes da liberação feminina, e num famoso debate em 1971 com Germaine Greer em Town Hall, Manhattan, ele se declarou um “inimigo do controle de natalidade”.

E ele falou sério. Com suas diversas esposas, o senhor Mailer teve oito filhos: Susan, com a senhoria Silverman; Danielle e Elizabeth Anne, com a senhorita Morales; Kate, com Lady Jeanne; Michael Burks e Stephen McLeod, com a senhorita Bentley; Maggie Alexandra, com a senhorita Stevens; e John Buffalo, com a senhorita Church. Ele também adotou Matthew, filho do casamento anterior da senhorita Church. Mailer teve dez netos.

Apesar de se considerar um hipster, o senhor Mailer era um pai atento e à moda antiga. Desde os anos sessenta custeou os gastos com todos os seus filhos e as pensões de suas mulheres, o que lhe obrigou a desovar alguns romances, incluindo “Um Sonho Americano” (1965), e a fazer freelances para revistas, a fim de saldar as suas contas.
Uma série de artigos para a Esquire nas convenções republicanas e democráticas de 1968 formaram a base para o seu livro “Miami e o Cerco de Chicago”, e artigos para a Harper´s e Commentary sobre a marcha anti-guerra no Pentágono em 1967 foram a base para o premiado livro “Os Exércitos da Noite: A História como um Romance, o Romance como História”.

Servo de um homem louco

O início de “Os Exércitos...” é um bom resumo da vida do senhor Mailer naquela época e um exemplo de como ele começou a se transformar num personagem em que o estilo literário e a sua individualidade eram virtualmente inseparáveis.

“Como Mailer chegou a reconhecer ao longo dos anos, o modesto sujeito do dia-a-dia era servo de um homem louco que era ele próprio. O cavalheiro não aparecia com freqüência. Era raro: uma vez por mês, nem duas vezes por ano, e a algumas vezes ele surgia quando Mailer estava amedrontado e furioso com o medo; às vezes surgia apenas para tomar um ar fresco. Ele era indispensável, entretanto, e Mailer até gostava dele. Já o homem louco era esperto em seu louco modo e absolutamente destemido. Ele teria sido admirável, exceto por ser um absoluto egomaníaco, uma fera. Nada estava fora do seu alcance”.

O crítico Richard Gilman disse do livro: “Em ‘Os Exércitos da Noite’, a força rude da imaginação de Mailer, seu talento obstinado de observação, seu encanto, é calculado honestamente e toda a sua audácia floresce numa terra firme de novos assuntos e temas coerentes.”

Alfred Kazin louvou o livro pela sua “admirável sensibilidade, cândida inteligência” e “pela sua preocupação com a América”.

De alguma forma naquela década agitada o senhor Mailer também conseguiu escrever “De um Incêndio na Lua”, sobre a chegada do homem à Lua em 1969, texto que começou como um série de artigos para a revista Life. Nessa época também fez seu filme mais famoso, “Maidstone”, no qual durante as filmagens mordeu parte da orelha do ator Rip Torn, depois que o senhor Torn lhe atacou com um machado. Também concorreu finalmente à prefeitura de Nova York, com a proposta de transformar a cidade de Nova York no qüinquagésimo primeiro estado. Ele também propunha banir automóveis particulares da cidade.

O escritor Jimmy Breslin, que também estava na chapa de Mailer, pensava que a sua candidatura era uma fanfarronice até que, numa reunião do comitê na boate Village Gate, ele descobriu que o senhor Mailer estava falando sério. (A chapa de Mailer acabaria não sendo escolhida para representar os Democratas, perdendo para Mario Procaccino, que por sua vez seria derrotado na eleição por John V. Lindsay.)
Em uma entrevista em setembro de 2006, o senhor Mailer disse que seu romance preferido, se não o melhor, era “Machões não dançam”, um thriller misterioso que escreveu por motivos financeiros em apenas dois meses em 1984. Ele tinha problemas com impostos, explicou, e precisava produzir algo rapidamente. “Eu estava disposto a escrever um mau livro se necessário”, ele disse, “mas em vez disso o estilo surgiu e isso me salvou”.

Seu melhor livro, ele decidiu depois de pensar por um momento, foi “Noites Antigas” (1983), um longo romance sobre o antigo Egito. O livro recebeu o que então tornaria-se comum nas críticas a seus trabalhos: elogios excessivos de uns e o desdém de outros. Sobre o livro que muitos críticos consideram sua obra-prima, “A Canção do Carrasco”, ele disse que possuía sentimentos conflitantes porque não era um projeto inteiramente próprio. “A Canção do Carrasco” – que é sobre Gary Gilmore, um assassino condenado que, depois de ficar no corredor da morte, pediu para ser executado no estado de Utah em 1976 – foi idéia de Lawrence Schiller, um escritor e cineasta que fez muitas pesquisas para o livro, filmando o senhor Gilmore e sua família.

Mas em “A Canção do Carrasco” o senhor Mailer reorganizaria esse material em uma nova voz impessoal que renderia os pensamentos para os personagens, em um estilo retirado parcialmente de suas próprias maneiras de falar. Mailer chamou isso de “romance da vida real”.

Joan Didion, resenhando o livro para o The New York Times Book Review disse: “É ambicioso ao ponto de causar vertigem. É fato que Mailer é um estilista grandioso e obsessivo, um escritor para quem o formato da frase é a estória. Suas frases não são longas ou curtas por acidente ou porque ele está com pressa. Eu acho que ninguém fora Mailer poderia ter ousado escrever um livro como esse. A autentica voz do oeste, a voz ouvida em ‘A Canção do Carrasco’, é ouvida freqüentemente na vida real, mas raramente na literatura”.

O senhor Schiller também ajudou o senhor Mailer com “A História de Lee Oswald: Um Mistério Americano”, seu livro de 1995 sobre Lee Harvey Oswald, o assassino do presidente John F. Kennedy. Em uma resenha para o The Sunday Times of London, Martin Amis chamou o livro de uma “proeza memorável de imaginação”. Mas o senhor Amis também notou que o livro lembrava a campanha que Mailer fez a favor do condenado Jack Henry Abbott, o que demonstrava mais uma vez a “velha queda do autor por qualquer assassino que embaralhasse o seu caminho com algumas páginas de Marx”.

O senhor Abbott cumpria uma longa sentença em uma prisão de Utah por estelionato e por ter assassinado um colega de prisão quando, em 1977, começou a escrever para o senhor Mailer. Este enxergou talento literário nas cartas do senhor Abbott e ajudou a publicá-las num aclamado volume chamado “Na barriga da fera”. Mailer também fez pressão para que o senhor Abbott tivesse liberdade condicional. Poucas semanas depois de ser solto, em junho de 1981, o senhor Abbott, agora um queridinho dos círculos literários de esquerda, assassinou uma garçonete com uma facada, num restaurante no Lower East Side.

De black-tie em eventos beneficentes

Este episódio foi a última grande controvérsia na carreira do senhor Mailer. Fatigado talvez, e estabilizado em seu casamento com a senhora Church, uma ex-modelo com quem ele casou em novembro de 1980, Mailer arrefeceu. O antigo anfitrião sedutor e arruinador de festas se tornou em convidado regular em eventos beneficentes e jantares promovidos por pessoas como William S. Paley, Gloria Vanderbilt e Oscar de la Renta. Seu editor, Jason Epstein, disse desse período: “Existem dois lados de Norman Mailer, e o lado bom venceu”.

Em 1984 o senhor Mailer foi eleito presidente da organização de escritores PEN American Center, e foi a principal força em trazer autores de todo mundo para uma conferência bastante badalada chamada “A Imaginação do Escritor e a Imaginação do Estado”. O senhor Mailer acabaria sendo criticado por intelectuais de esquerda que protestaram sobre o seu convite a Geroge P. Shultz, então secretário do estado, para a sessão de abertura. O senhor Mailer chamou a esses de “esquerdistas puritanos”.

Nos anos noventa a saúde do senhor Mailer começou a piorar. Ele tinha artrite, sofria de angina e usava aparelho para surdez. Mas a sua produtividade se mantinha inalterada, especialmente depois que ele entrou, nas suas próprias palavras, num “regime monástico” em 1995, deixando de beber enquanto trabalhava. “Bellow, eu e mais alguns fomos muito menores do que Faulkner e Hemingway”, ele reconheceu no início da década, mas nunca deixou de afirmar que, entre seus contemporâneos, ele era o campeão peso-pesado.

Em 1991 ele publicou “O Fantasma da Prostituta”, um romance de 1310 páginas sobre a CIA, que ele concebeu como uma espécie de igreja da guerra-fria, guardiã dos segredos da nação e propagadora de seus valores. Ele lançou uma biografia do Picasso parcamente reconhecida pela crítica em 1995, seguida em 1997 por “O Evangelho Segundo o Filho”, um romance em primeira pessoa sobre Jesus. Foi a brecha que alguns críticos estavam esperando. Norman Mailer pensa que é deus, disseram eles. No romance seguinte do senhor Mailer, “O Castelo na Floresta”, sobre Hitler, o narrador era o diabo, uma máscara que o autor admitiu adequada.

Entrevistado em sua casa em Provincetown, Massachusetts, pouco depois da publicação do livro, o senhor Mailer, frágil mas alegre, disse que esperava que sua pouca visão ainda durasse para que ele pudesse completar uma seqüência do livro. Seus joelhos estavam péssimos, ele acrescentou, segurando duas bengalas que usava para caminhar, e havia começado a fazer palavras cruzadas diariamente para refrescar seu estoque de palavras.

Por outro lado, escrever para ele estava mais fácil em pelo menos um aspecto: “O desperdício é menor”, ele disse. “As manias e as depressões diminuíram. Escrever é uma atividade séria e sóbria para mim agora, comparado quando eu era jovem. Se você é bom ou não, é uma questão que os melhores romancistas são obcecados em fazer, mais do que os romancistas ruins. Bons romancistas estão sempre terrivelmente afetados pelo medo de que eles não são tão bons como pensam que são e se perguntam por que estão escrevendo e onde podem chegar.”

“É uma noção tão estranha, particularmente nessa sociedade tecnológica, de que a sua vida é justificada por se ser um romancista”, continuou ele. “E o lado bom de se envelhecer é que eu não me importo mais com isso. Eu descobri algo que pouparia minhas aflições a 30, 40, 50 anos atrás, isto é, que a reputação de alguém tem muito pouco a ver com o seu talento. A História é que determina a sua reputação, não a ordem das suas palavras.”

Sacudindo sua cabeça, ele acrescentou: “Em dois anos, eu serei um romancista publicado por 60 anos. Isso não acontece com muitos de nós.” E ele se lembrou de algo que disse na cerimônia do National Book Award em 2005, quando recebeu um prêmio pela carreira: que ele se sentiu como um velho cocheiro que olha com horror, na virada do século XX, os carros barulhentos soltando fumaça.
“Eu acho que o romance já está de saída”, disse ele.

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2 de set. de 2007

+ Leituras recentes
Descobrindo Marcos Prado

carniça e caviar

ao lado dos sonhos, sempre haverá suspiros
amigos bebem todos os dias aos litros
e no fim da noite trocam tiros
não sem antes distribuir brutos sopapos
o álcool transforma príncipes em sapos
e mariposas em vampiros
a ressaca transforma todo mundo em escombros
os pesadelos curtos em longos
para uma longa noite, uma manhã em frangalhos
caminhos de bêbados são atalhos
zigzags, tropeços e tombos

*


120 minutos

espero que amanheça, não pelo sol, mas pelo ônibus
a cidade está atenta caso eu durma na praça
pra roubar minha jaqueta bota cigarro e o vale-transporte

quero que amanheça, não para acordar, mas para dormir
o primeiro ônibus passa às seis e são quatro
escrever para ficar acordado, única alternativa

peço que amanheça, não pela manhã, mas pela noite
que eu passei bebendo e esperando o primeiro ônibus
e me fez escrever até agora que ele está chegando



Acima, duas poesias muito boas que integram a antologia Ultralyrics (Travessa dos Editores, 2005), do poeta curitibano Marcos Prado (1961 - 1996). O poema “Carniça e Caviar” (parceria com Edson de Vulcanis), em especial, está dentro do CD que acompanha o livro, e é declamado pelo próprio Marcos.


Marcos Prado nasceu em Curitiba, PR, a 15 de dezembro de 1961. Foi poeta, tradutor, letrista, ator e assíduo colaborador em jornais e revistas. Morreu em 31 de dezembro de 1996, aos 35 anos. Algumas coletâneas de que participou: Sala 17 (1978); Reis magros (1979); Sangra:Cio (1980); Feiticeiro inventor (São Paulo, editora Criar, 1985); e Outras Praias/Other Shores - 13 poetas emergentes (Iluminuras, 1997).

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22 de ago. de 2007

+ Leituras
Jornalismo transcendental

De tempos em tempos descubro algum jornalista cujos textos realmente me cativam tanto quanto os de um grande escritor. Primeiro foi o João do Rio. Depois o Tom Wolfe. E agora o Kurt Tucholsky.

Ando lendo este livro dele ultimamente: Hoje Entre Ontem e Amanhã (Livraria Almedina, Coimbra, 1978), que é uma coletânea de vários textos. Um que gostei bastante foi esta crônica escrita em 1926, intitulada "Saudação para o futuro". Seguem alguns trechos:

Caro leitor de 1985:
Por um acaso qualquer andaste a vasculhar na biblioteca, deste com a Mona Lisa [Tucholsky se refere ao seu livro O Sorriso de Mona Lisa, de 1928, no qual esta crônica foi republicada], ficaste estupefacto e aí estás a lê-la. Bom dia!

Estou muito confuso: o teu fato é completamente diferente do meu tempo; diverso é também o modo como usas a massa cinzenta... Já tentei começar três vezes, de cada vez com um tema novo: temos mesmo de arranjar um ponto de contacto... (...)

Tudo na minha pessoa te parece antiquado: a minha maneira de escrever, a minha gramática, as minhas atitudes... Ah! Não me dês pancadinhas nas costas, que eu não gosto disso. É em vão que tento dizer-te como nos corria a vida, o que aconteceu no nosso tempo... mas... nada. Sorris, a minha voz ressoa do passado, impotente, e tu já sabes tudo.

Queres que te fale do que impressionava a gente da aldeola do meu tempo? De Genebra? De uma estreia de Shaw? De Thomas Mann? Da televisão? De uma ilha de aço no meio do oceano para base de aviões? (...)

Queres que te lisonjeie? Não consigo. É evidente que vocês não resolveram a questão: "Sociedade das Nações ou Paneuropa?"; é que as questões não são resolvidas pela humanidade, vão ficando por resolver.

Claro que vocês têm todos os dias ao vosso dispor mais trezentas máquinas inúteis que nós, mas de resto são tão estúpidos ou tão espertos como nós, iguaizinhos. (...)



Kaspar Hauser, Peter Panter, Theobald Tiger e Ignaz Wrobel foram alguns dos pseudônimos de Kurt Tucholsky, este grande jornalista, escritor e satirista alemão. Nascido a 9 de janeiro, em Berlim, mudou-se para a França em 1924 e depois para a Suécia em 1930. Em seu exílio nesse último país (Tucholsky teve sua cidadania alemã cassada em 1933 pelos nazistas), entra em uma grave crise existencial e morre depois de ter ingerido veneno, em 1º de dezembro de 1935.

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4 de mai. de 2007

Artes
Grandes perdas: Rostropovich e Jamil


"Slava" e o "Turco": expoentes da música e da literatura

Em homenagem ao violoncelista russo Mstislav Rostropovich, que faleceu recentemente, no dia 27 de abril, e a Jamil Snege, falecido no dia 16 de maio de 2003, segue o início de um magistral conto de Snege, presente no livro Os Verões da Grande Leitoa Branca (Travessa dos Editores, 2000), o qual, não por acaso, intitula-se: “Em busca de Rostropovich”:

“Gosto dos outonos nublados e frios de Curitiba. Vista aqui do alto, do vigésimo andar, Curitiba lembra um pouco Buenos Aires, a Calle Lavalle, lembra um pouco Lyon, Bruxelas ou outra cidade européia que jamais conheci.

Por um momento essa atmosfera me envolve a ponto de me convencer a vestir o casaco e descer até a rua, predisposto a saciar uma súbita fome intelectual por um bom livro, uma boa música, uma obra de arte qualquer.

Li recentemente que Rostropovich reuniu em álbum* suas principais gravações feitas entre 1950 e 1974, das Bachianas a Schumann e Beethoven, incluindo os dois concertos de Chostacovich.

Eis o pretexto: procurar Rostropovich nas casas especializadas de Curitiba, embora saiba de antemão que será uma busca vã. Já imagino o ar de riso das moças que me atenderão, as consultas ao gerente, as desculpas, mas preciso manter a qualquer custo a atmosfera.

Estou, afinal, numa capital européia – não é disso que a propaganda oficial sempre tentou nos convencer? Não duvido, portanto, de cruzar com o próprio Rostropovich e seu violoncelo no meio da Praça Osório, atrasado para o ensaio de dali a pouco na Escola de Música e Belas Artes do Paraná”.

O conto segue, o personagem – um sujeito de personalidade não muito diferente do Jamil – então entra num sebo à caça de um disco do russo, quando três bandidos invadem a loja e dão voz de assalto. O final dessa história você descobre lendo esse livro aqui.




E quem quiser ouvir o álbum* mencionado no conto, procure por este:



Mstislav Leopoldovich Rostropovich
Nasceu a 27 de março de 1927 no Arzeibaijão – na época parte da União Soviética –, numa cidadezinha chamada Baku. Oriundo de uma família de músicos (seu pai era violoncelista, teve aulas com Pablo Casals; a mãe era pianista) Rostropovich começou a estudar piano aos 4 anos e violoncelo aos 10. Aos 16 entrou para o conservatório de Moscou, onde estudou composição com Prokofiev e Shostacovich.


Em 1945 ganhou um concurso na URSS para jovens músicos. Rostropovich seria aclamado então como uma das principais figuras da música em seu país e começaria a se apresentar pelo mundo todo. Entretanto, “Slava”, como era chamado pelo amigos, não compactuava com o autoritarismo do regime comunista e inclusive comprou briga com o Estado quando, em 1970, abrigou o escritor Aleksandr Solzhenitsyn (que era considerado subversivo) em sua fazenda e escreveu uma carta aberta aos jornais russos, defendendo-o.

Em 1973, deixaria a URSS, exilando-se nos Estados Unidos e depois na França. Com o fim do comunismo, voltaria mais frequentemente à Russia, e fez questão de realizar o tratamento contra o câncer que o acometia, em sua pátria, onde acabou falecendo no dia 27 de abril, aos 80 anos. Rostropovich é considerado um dos maiores violoncelistas do século XX.

Jamil Antônio Snege
Nascido a 10 de julho de 1939 em Curitiba, PR, era descendente de sírios e italianos. Sua relação com o mundo dos livros começou desde o berço, visto que seu pai, José Snege, era tipógrafo. Aos 16 anos Jamil já escrevia profissionalmente, atuando como colunista social, atividade que teve que ser interrompida com a sua ida para o Rio de Janeiro em 1959.


Depois de ser expulso do Núcleo de Preparação dos Oficiais da Reserva, o NPOR, em Curitiba, por ter provocado um incêndio em um campo de treinamento, foi obrigado a servir mais um ano de exército como soldado raso. Optaria então por servir no Rio de Janeiro, como pára-quedista.

De volta a Curitiba, depois de cumprido o seu compromisso com a mãe pátria, o "Turco" (assim os amigos o chamavam) voltaria para a imprensa, mas como redator-chefe da revista Planalto. Jamil passaria então por mais algumas revistas e jornais, até conseguir emprego como redator de publicidade. Formou-se em Sociologia em 1968, mas continuou trabalhando com publicidade até o fim da vida, tendo adquirido a sua própria agência, a Beta, em 1983.

Ao mesmo tempo, sempre esteve envolvido com a literatura. Publicou seu primeiro livro individual em 1968, a novela Tempo Sujo, e escreveria mais outros dez livros, que contemplaram diversos gêneros: conto, poesia, memórias e teatro. Faleceu no dia 16 de maio de 2003, aos 63 anos, vitimado por um câncer de pulmão. Jamil Snege é uma grande figura da literatura e da publicidade brasileira que merece ser sempre lembrada.

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