11 de abr. de 2008

Entrevista)))
Ela é a mãe de “Jesus”

Ou melhor: criadora do personagem
Montgomery Marcelino Jesuíno de Jesus
Foto Alessandra Haro

Confira a entrevista com a dramaturga Léo Glück (foto), autora da polêmica peça Jesus vem de Hannover

No mês de fevereiro, inúmeros cartazes com a inscrição Jesus vem de Hannover começaram a surgir em paradas de ônibus pela cidade. Uma porção de gente ficou intrigada. Seria uma mensagem de alguma igreja neopentecostal?

Uma análise mais acurada mostrava que não. Era apenas o nome de uma peça da dramaturga Léo Glück, e que foi encenada, com a direção de Henrique Saidel, pela Companhia Silenciosa (grupo mantido por Léo, Henrique e mais Giorgia Conceição).

Desde a sua estréia no Teatro Novelas Curitibanas, Jesus... dividiria opiniões e seguiria causando polêmica ao se apresentar também na mostra Fringe do Festival de Curitiba.

Na entrevista a seguir, a dramaturga Léo Glück – que também atuou na peça – rebate críticas, esclarece alguns temas explorados na montagem e revela um pouco do seu processo criativo como escritora.

*

Francofonia – Dois jornalistas na mídia curitibana chamaram o espetáculo de vocês de amador. O que você tem a dizer a essas pessoas e sobre isso?
Léo Glück – É falta total de referência. Todos têm o direito de não gostar e até de odiar o espetáculo. Mas daí a não enxergar o básico, já é falta de fontes, sabe? Imagine: disseram que o figurino era improvisado! Eu não entendi uma colocação assim. Ficou parecendo birra.

Eu posso não gostar de algumas peças, mas consigo também reconhecer se elas têm qualidade técnica ou não. Por isso acho que esses comentários foram feitos por gente completamente despreparada. Mas o Nelson de Sá, gente que realmente importa, falou bem da peça no blog Cacilda [da Folha de S. Paulo]. Pelo menos ele é abalizado.

Francofonia – E como estão sendo as reações do público em relação à peça? [A entrevista aconteceu no período do Festival de Curitiba]
Glück – No Festival tem bem menos gente vendo porque a concorrência é grande e, às vezes, desleal. Mas muita gente adora e se diverte (leigos, em geral), enquanto outros saem odiando.

Francofonia – Você se sente uma incompreendida com os seus textos?
Glück – Sinto me incompreendida inúmeras vezes. Mas não me importo com isso. Um espetáculo (a arte, em geral) não serve para "explicar" nada. E se tem gente que tem isso como expectativa, que pena. Vão se frustrar cada vez mais.

Francofonia – Como surgiu o texto de Jesus vem de Hannover?
Glück – Faz uns dois anos e meio que escrevi a peça. Sentei na frente do computador, com tudo ligado: som, televisão, e a escrevi em algumas horas... Em cinco, acho.

Francofonia – Você chegou a mexer no texto depois? Costuma reescrever suas peças?
Glück - Não mexi em nada. Não gosto de mexer nos textos depois de "prontos". A não ser que seja uma necessidade específica da montagem. Mas Jesus... não sofreu nenhuma alteração.

Francofonia – Bem, mas de onde nasceu a idéia de criar esse controverso personagem-título, e por que fazê-lo vir especificamente de Hannover?
Glück - A idéia do título eu tive antes de escrever a peça, tomando café num bistrô. Gosto de anotar títulos que acho interessantes. Tenho várias peças inéditas que foram escritas assim, a partir do título, como The Mango Tree, Stoccarda, Linda Blair Entra Na Sala, Fellatio...

Francofonia – Você imaginava que esse título ia deixar as pessoas assim tão instigadas? E que ele seria uma espécie de pegadinha?
Glück – Não, mas da maneira que foi feito o "marketing" em torno do espetáculo, acabou causando isso. É pretensão das pessoas achar que o Jesus é Cristo. Porque ninguém pensa que pode ser outra coisa, que pode ser um sobrenome, como é, aliás.

Francofonia – E quanto aos nomes de Saddam e Napoleão que são mencionados na peça? Eles são quem pensamos?
Glück – Esses são! É ironia, na verdade. Megalomania.

Francofonia – Você pensou em discutir ideologias com a sua peça?
Glück – A ideologia da bandeira esfarrapada, talvez?



"Um espetáculo (a arte, em geral) não serve para 'explicar' nada. E se tem gente que tem isso como expectativa, que pena. Vão se frustrar cada vez mais."

Francofonia – Num primeiro momento, não consegui identificar muitas questões ideológicas sendo discutidas, como algumas pessoas identificaram. Particularmente, vi sim um monte de piadas...
Glück – São várias as questões ideológicas, em minha opinião (embora a minha opinião não seja em nada definitiva). Eu só não acredito que tomar partido seja a melhor maneira de se interpretar qualquer ideologia. E isso está em todos os nossos trabalhos. É realmente uma pena que você só enxergue piada ali. Sempre tentamos dar vez ao microcosmo para falar de assuntos mais "globais". Senão vira panfleto, engajado e "politicamente correto".

Francofonia – Você acha então que Jesus... chega a ser uma peça política e não uma peça trash sobre ciborgues?
Glück – Acho que esta é a peça mais política que já fizemos. Não é uma peça sobre ciborgues. Acho que se trata mais de uma alegoria sobre como estamos sendo invadidos por sistemas não-humanos. Você já foi ao banco e a máquina te disse: "Sistema fora do ar"?

Francofonia – É verdade que a peça aborda a questão da desumanização. Mas talvez essa e outras questões importantes fiquem um tanto ofuscadas pela quantidade de informação que vocês nos bombardeiam... Numa saída da peça, ouvi pessoas dizendo que estavam boquiabertas, perplexas com aquilo tudo.
Glück – Entendo... Mas não confunda 'quantidade de informação' com 'piada'...

Francofonia – Mas as piadas fazem parte dessa massa de informações. Ou não?
Glück – Mas nem chega a ser uma parte tão grande assim... E talvez o que você queira dizer com piada seja o invólucro com o qual a informação está embalada.

Francofonia – Outra coisa que ouvi de algumas pessoas é que a presença de inúmeras digressões absurdas na peça – à la Quentin Tarantino – também causa um certo incômodo. Afinal é todo um discurso que não leva a nada...
Glück – Não temos digressões a valer na vida? Por que não podemos ter na arte? Ou sua vida é dividida cartesianamente em atos? Muita coisa não leva a nada. Acho que Jesus... nem pretende levar ninguém a nada. Reflexão é exercício.

Francofonia – Talvez as pessoas sintam falta de encontrar algo mais profundo na peça...
Glück – Mas se elas não ouvem nada de profundo ali, que fujam loucas! Você acha que não tem? Há uma parte do texto, que é a minha preferida. Está na cena chamada "Desejos Glaciais". Se você não percebe o sentido disso, falhou em tudo...

Francofonia – É quando os aquecedores presentes no teatro são ligados?
Glück – Sim, sim... Calor humano artificial... Aquecimento global... “Seremos substituídos por robôs!” [diz uma das falas na cena]

Francofonia – E sobre a influência do futurismo (o movimento artístico europeu do início do séc. XX)? O futurismo valorizava a guerra, a máquina, a juventude, a velocidade... Isso tudo está muito presente na peça, não?
Glück – Sim, tem tudo isso... Fugacidade, efemeridade. E amor! O futurismo, junto com dadaísmo, é uma das nossas referências, com certeza. Mas esse futurismo também aparece com cara de "ideologia fracassada do passado" às vezes.

Francofonia – Você acabou de falar em “amor”, mas onde ele está na peça?
Glück – Não está. É sobre isso que falamos.

Francofonia – Há mais alguma coisa que você queira dizer sobre Jesus...? Você crê nele?
Glück – Acho que eu mesma não creio em Jesus nenhum!

Francofonia – Tem alguma religião?
Glück – Tenho um lado espiritual independente de religiões...


*Publicada na Revista Idéias nº78

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7 de set. de 2007

+ Teatro
A arte de sugar o próximo
Companhia Silenciosa volta a encenar Parasitas, espetáculo que compara relacionamentos afetivos ao parasitismo biológico


Em Parasitas, a maquiagem é um elemento que se destaca. Não por acaso. “Quando eu li a peça, senti que aqueles personagens sofriam tanto, que imaginei sangue saindo da cabeça deles”, diz a maquiadora Léo Glück. Léo então fez questão de marcar os atores com feridas vermelhas e também enrolou os pescoços deles com fita adesiva.

Há dois anos, eu estava um dia na biblioteca do Instituto Goethe quando, súbito, gritos estridentes irromperam do lado de fora da sala. “O que será que está acontecendo?”, perguntei, assustado, à bibliotecária. Ao que ela respondeu tranqüila: “Ah, é só o grupo que está ensaiando uma peça no auditório”. Esse grupo, ironicamente, se chamava Companhia Silenciosa, e a peça que ensaiava era Parasitas, do dramaturgo alemão Marius von Mayenburg.

A peça, então inédita no país, estreou oficialmente no final de 2005 na Casa Hoffmann, e por fim seria montada no Ateliê de Criação Teatral (ACT), dentro do festival de Teatro de Curitiba em 2006.

Agora, com um elenco diferente, Parasitas ressurge em curta temporada no Teatro Cleon Jacques, de 6 a 16 de setembro (quinta a domingo, às 20h). O ingresso para o espetáculo é uma lata de leite em pó.


Quem são os parasitas
Repleto de humor negro, o drama de Marius von Mayenburg retrata momentos difíceis, de mudança, na vida de um jovem que foi atropelado.
Com o acidente, Ringo (Wagner Correa) fica paraplégico e passa a questionar se sua esposa Betsi (Giorgia Conceição) ainda lhe ama.

Ao mesmo tempo, sua cunhada Friderike (Ana Ferreira), que está grávida e também vive um período de crise com o marido Petrick (Angelo Cruz), vai morar em sua casa.

Como se isso não bastasse, além de ter de suportar a parente indesejada, Ringo começa a receber visitas inoportunas de Multscher (Adolfo Pimentel), o velho solitário que o atropelou e que agora deseja ser seu amigo.

Eis os “parasitas” a que o título da peça se refere, visto serem pessoas que mantêm relações mútuas de exploração psicológica.


Mas além dos personagens citados, o diretor Henrique Saidel revela que criou para a montagem uma nova figura, inexistente no texto original: “A peça possui milhares de rubricas dizendo: choro; caem lágrimas. Em quase todos os personagens e em vários momentos, o que eu acabei cortando”, diz ele. “Então peguei todo esse choro e coloquei num personagem só”, o qual batizou de O espírito da Alemanha que chora, interpretado por Nina Rosa Sá.

O espírito, que apenas fica vagando pelo palco sem dizer palavra alguma, “serve para catalisar toda a pungência da peça”, afirma o diretor.

Serviço
Parasitas, de 6 a 16 de setembro (quinta a domingo), às 20h, no Teatro Cleon Jacques – Parque São Lourenço. Ingresso: uma lata de leite em pó. Informações: 3313-7190.

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6 de set. de 2007

Montagem é pioneira no Brasil
Parasitas é uma das três peças do alemão Marius von Mayenburg que estão traduzidas para o português


Mayenburg já recebeu o Prêmio Kleist de dramaturgia por Cara de Fogo em 1997, e o prêmio da Fundação de Autores de Frankfurt em 1998.

A Companhia Silenciosa foi o primeiro e ainda é o único grupo a encenar no país a peça Parasitas (Parasiten), do alemão Marius von Mayenburg. Das 11 peças que ele escreveu, apenas mais duas foram traduzidas para o português: Senhorita Danzer (Fräulein Danzer) e Cara de Fogo (Feuergsicht).

Aos 35 anos, residente da Schaubühne am Lehniner Platz em Berlim, Mayenburg é considerado um dos principais dramaturgos europeus da atualidade. No momento, a Royal Court, de Londres, encena seu último trabalho, Der Hässlisch (O Feio), que em inglês recebeu o título de The Ugly One.

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+ Entrevista
Diretor de Parasitas fala sobre a montagem da peça
O parasitismo é algo natural, mas não precisaria ser assim, diz Henrique Saidel
Fotos: Franco Fuchs


O diretor Henrique Saidel é um dos eixos que sustentam a Companhia Silenciosa, ao lado de Giorgia Conceição e Léo Glück. Os três formaram o grupo em 2002, enquanto cursavam a Faculdade de Artes do Paraná (FAP), e desde então já realizaram 16 montagens.

No momento, a companhia reapresenta a peça Parasitas, no Teatro Cleon Jacques, até o dia 16 de setembro.

A seguir, confira a entrevista feita com Henrique, horas antes do primeiro ensaio geral da peça.

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Francofonia – Num dos programas antigos de Parasitas, havia um texto, aparentemente científico, dizendo que o parasitismo existia “desde o surgimento da vida, há 4 bilhões de anos atrás, em todas as espécies...” Para você, o parasitismo é mesmo algo inevitável nas relações humanas?
Henrique Saidel – Quando estávamos montando a peça, fizemos uma pesquisa de termos e palavras. Parasitismo era uma delas. O texto que colocamos no programa então foi tirado de uma monografia de biologia, que falava de parasitas. Quando li aquilo eu pensei: nossa, que loucura! Na realidade não foi tanto acreditando nisso. Não quis fazer um transporte do biológico para o social. Mas achei tão peculiar o determinismo da frase, afirmar que isso sempre existiu... Eu achei curioso. De fato, em termos biológicos, o parasitismo é uma coisa inerente à vida. Tem bicho que só vive disso, não tem outro jeito de viver.

Mas assim como eu concordo que o parasitismo é algo natural, também acredito no contrário disso, que você não precisaria ser parasita. No entanto é normal que existam essas relações, mesmo que a gente não goste.

Francofonia – Você se consideraria um parasita? Ou um parasitado?
Saidel – Isso sempre rola, mas também é difícil determinar esses limites. Por exemplo, existem parasitismos que são benéficos, como a nossa flora intestinal [conjunto de bactérias que habitam o intestino], e se não fossem eles a gente não ia conseguir viver. Mesmo em termos biológicos, nem todo parasitismo é ruim. E dizer que eu sou um parasita ou que eu sou um parasitado dá uma impressão que é uma coisa permanente.

Eu acho que essas coisas se estabelecem de forma pontual. Daí a gente pode entrar também em questões panfletárias e dizer que somos parasitados pelo governo... Mas eu não me sinto muito à vontade para transitar por esse campo. Mas podemos alegar isso, e dizer que eu também parasito, sei lá... se eu faço um gato na Net. Eu parasito a Net, se a gente for colocar assim. (Risos) Não vai colocar isso, hein?

Isso rola de monte. Isso é parasitismo? Pode ser, né? Mas é uma coisa que acontece sempre, e em certa medida todo mundo em algum momento já parasitou. Desde uma mãe que mima demais um filho, o filho que é muito mimado e fica lá pedindo me dá isso, me dá aquilo, e o pai vai lá e se f.... pra pagar. Se você for levar isso radicalmente, você pode considerar uma forma de parasitismo. Ou então uma pessoa com mais de 30 anos que ainda não saiu da casa dos pais...


“Lendo o texto, eu ria muito. Depois é que eu parei para pensar do que eu estava rindo.”


Francofonia - Como o texto de Parasitas chegou até a Companhia Silenciosa?
Foi um caminho meio tortuoso. A Ana Christine, uma amiga nossa, foi morar em Buenos Aires, e um dia ela mandou um e-mail dizendo que tinha descoberto um autor no ciclo de leituras que o Goethe promovia lá. Ela tinha visto La Niña Fria (Das kalte Kind) [também de Marius von Mayenburg] e disse, olha, vocês tem que conhecer esse cara. E aí eu comecei a pesquisar. Ela então mandou para a gente uma tradução de Parasitas, mas que não tinha o nome do tradutor.

Mais tarde, quando decidimos montar o texto, eu baixei uma outra tradução no site do Goethe, mas era uma tradução em português de Portugal. Então fui conversar com a Claudia [Römmellt, diretora do Goethe Institut em Curitiba] no Goethe a ela conseguiu que a Christine Röhrig cedesse a tradução dela para gente, que coincidentemente era a mesma que a nossa amiga tinha nos mandado. Depois a Claudia conseguiu que a editora na Alemanha nos cedesse os direitos do texto original.

Ao mesmo tempo, era a minha montagem de final de curso [na FAP] e a gente pensou: vamos experimentar fazer um texto de outra pessoa – porque até então a gente só montava textos nossos. Parasitas é um texto que, comparado aos nossos, é mais tradicional. Decidimos também ser fiéis a ele, e fomos. Só cortei uma cena, uma fala maior do Petrick com a cobra, que eu achei meio desnecessária. Mas dentro das cenas não há corte nenhum.

Francofonia – E o texto, ele foi escrito em 1999...
Saidel – Foi escrito em 1999 e estreou em 2000, em Hamburgo, quando o Mayenburg ainda estava lá. Depois que estreou Parasitas que ele foi para Berlim. Quem dirigiu foi o Thomas Ostermeier, que agora está na Schabühne. Ele foi chamado para dirigir na Schaubühne e levou o Mayenburg junto.

Francofonia – E a tradução da Christine Röhrig foi feita em 2002...
Saidel – Eu não lembro exatamente, mas foi logo depois. A tradução é super recente. Tanto que quando a gente fez a montagem no ACT (Ateliê de Criação Teatral) em 2006, e a Christine [Röhrig] veio assistir.

Francofonia – E o que ela achou?
Saidel – Olha, ela disse que gostou bastante. Não sei se ela costuma dizer que gosta de coisas que não gosta, e falou só para agradar, mas ela disse que gostou, e disse até que pensou em mudar algumas coisas na tradução, rever alguns termos, vendo a montagem. (...) Foi bem bacana conhecê-la, até porque várias coisas que a gente gosta, os textos do Heiner Müller, por exemplo, tem sempre o nome dela. Dela e do Marcos Renaux.

Francofonia – E vocês foram os primeiros a encenar Parasitas?
Saidel - Sim. Antes já tinha sido feita uma leitura dramática da peça num ciclo de leituras em São Paulo. Lá eles leram vários textos do Mayenburg, inclusive o Parasitas. E daí tinha sido feito uma montagem em São Paulo da peça Cara de Fogo (Feuergesicht). Mas do Parasitas não tinha sido feito montagem nenhuma, e a gente confirmou isso com a editora.



Francofonia – Qual é a importância desse texto e do autor Marius von Mayenburg?
Parasitas e Cara de Fogo foram os textos com que ele mais ganhou prêmios. Agora ele deve estar com 35 anos, mas antes ele era super novo e de repente ganhou tudo. Daí o Ostermeier também bombou e eles foram para Berlim.
Agora, na realidade, a gente nunca parte disso, de pensar, ah, vamos montar um texto importante... Mas o que ajudou a gente a decidir fazer esse texto foi o fato de ser um texto alemão, de ter um ponto de contato com a cultura alemã, que na época estávamos muito ligados. E a gente achou importante também pelo fato de trabalhar com um texto contemporâneo, um texto novo.

Francofonia – Aproveitando esse gancho, o que o estilo e a proposta de Mayenburg tem em comum com a Companhia Silenciosa e os trabalhos que o grupo vem desenvolvendo?
Saidel - Formalmente talvez não tenha muita coisa a ver entre a Companhia Silenciosa e o Mayenburg. Vendo o espetáculo tem, porque a gente daí revestiu com o nosso estilo, mas lendo o texto, o que mais nos aproximou foi a questão do tema e da ironia, de coisas que são ditas mas não sãos, os subterfúgios... Só que formalmente costumamos ir por um sentido oposto. A gente trabalha com esses temas escapando um pouco da relação com os personagens miméticos.


Já o texto cai direto nisso, a ironia e a coisa está na relação dos personagens em si. Mas as duas propostas se tangenciam no ponto da crueldade, não uma crueldade artaudiana ou de sangue, mas numa crueldade nas pequenas coisas... No avacalhar um pouquinho com o outro, puxar o tapete, fazer umas brincadeiras para desestabilizar... E quando a gente lia o texto, a agente não acreditava: puxa, olha o que o cara está falando! Isso aqui é muito bom! Rolou uma identificação nesse sentido, do tema e do humor.

Mesmo sendo um texto super pesadão, ele tem uns momentos muito engraçados, que você dá uma descontraída. Tem muito humor negro.

Francofonia – Dá para considerar a peça uma tragicomédia?
Saidel – Não sei, porque tragicomédia me lembra uma coisa meio de costumes... É tão complicado definir isso, porque a gente vendo fotos e comentários das montagens alemãs, não se falava de comédia em nenhum momento. E nós achávamos tudo muito engraçado, tanto que eu te falei: lendo o texto, eu ria muito. Depois é que eu parei para pensar do que eu estava rindo. E isso aconteceu na leitura dramática também. Eu fiquei com medo, porque virou quase que um pastelão, a platéia rindo...


É engraçado como surge humor de coisas, situações, questões que a principio não deveria surgir humor. É tudo tão triste... Mas uma coisa que a gente luta a todo custo nos ensaios é também não fazer dessa peça um dramão.
Quando a coisa está ficando muito séria, eu já páro e digo: gente isso aqui não é um drama, vocês estão fazendo um dramão...


Francofonia – Sobre alguns aspectos da tua montagem: como surgiu a idéia de colocar, num dos momentos mais tensos da peça, a personagem Friederike falando através de um videokê?
Saidel – O videokê surgiu na leitura dramática [que a Companhia Silenciosa realizou no Teatro José Maria Santos na metade de 2005]. Afinal era uma leitura e tinha que se colocar o texto em cena. Mas foi também uma questão brechtiana, de mostrar que o que está sendo dito foi preparado antes, que aquilo é teatro, que isso aqui que está todo mundo achando engraçado ou chorando foi porque alguém mandou dizer. Daí o momento foi escolhido a dedo, que é a hora mais chorosa da peça, quando Friderike tenta se matar, toma os comprimidos. Então eu pensei: é aí que eu vou botar esse videokê!

Francofonia – Você acha que sem o videokê, sem esse distanciamneto, as pessoas iam ficar muito abaladas?
Saidel – Olha, me conhecendo e conhecendo o resto da Companhia, a gente não ia agüentar fazer uma coisa muito impactante nesse sentido. A gente ia acabar inventando alguma outra coisa, que também não fosse tão estritamente dramática. Mas é que o texto em si, caminha nessa hora para isso. Por exemplo, nessa hora eu não ri, lendo o texto. Eu fiquei sério alguns segundos e daí quando foi mais para o final da cena eu pensei: putz, que piegas isso! e já saí um pouco do sério.

Mas isso não é só no videokê. Tem vários elementos, a sonoplastia também vai muito forte nesse caminho [de quebrar o clima tenso]. As musicas acabam funcionando como um texto complementar, melodicamente e na letra. Quando a gente fez a pré-estréia da peça no então Teatro Edson Bueno, o diretor Marcio Abreu disse que gostou muito das músicas e que elas faziam pausas na peça. A coisa está indo e, de repente pára, dá uma respirada. Eu não tinha pensado nisso, mas segundo ele isso dava uma chance para os espectadores pensarem um pouco nas coisas que estavam acontecendo antes de seguir em frente. Eu achei isso interessante. As músicas tocam quase todas até o fim, e algumas tem cena em cima e outras não. Algumas vezes pára a cena, toca a música, continua a cena. É o caso do funk...

A musica quebra o ritmo e conversa com o texto. Ela caminha de forma paralela. A gente construiu as cenas primeiro e depois colocou a sonoplastia. Ela é mais um elemento significante na coisa toda.

Francofonia – E como surgiu a aula de alemão (em forma de gravação, que se escuta no início da peça)? Aquilo cria um efeito hipnótico...
Primeiro que ninguém sabe falar alemão. Eu pensei, putz, um texto alemão... vamos dar uma aulinha de alemão para as pessoas aprenderem, um primeiro contato com a cultura alemã (Risos). E também a peça já começa de cara com uma brincadeira. Para as pessoas pensarem: uma coisa assim não pode ser exatamente muito séria, uma aula dessas...

Francofonia - Sem contar que essa questão da aula de idioma tem a ver com teatro do absurdo, não?
Sim, a idéia da peça A Cantora Careca, do Ionesco, partiu de uma aula de inglês. Ele usou várias frases de um livro.


“Então eu chego pra Nina [Rosa Sá] e falo: Nina, você tem que fazer duas coisas nessa peça: você tem que andar por aí devagarzinho e chorar.”

Francofonia – Foi uma referência explícita a isso, ou não?
Saidel – Não, nesse sentido não. A intenção era mesmo assim: isso aqui é uma aulinha, aprendam algumas coisas. Coisas que vocês devem saber antes...

Francofonia – Para a encenação, você criou um personagem que não existe no texto original: “O espírito da Alemanha que chora”. Por que e o que ele representa?
Saidel – isso reflete várias coisas. Primeiro é um pouco da minha relação em ter um texto fechado. Eu pensei, puxa, tem que ter uma coisa minha aí pra brigar com isso, né. (Risos). Tem que furar isso de alguma maneira. Esse embate com o texto foi o que norteou a coisa. E daí no texto havia milhares de rubricas dizendo assim: choro; caem lágrimas. Em quase todos os personagens e em vários momentos, o que eu cortei. Aí o que a gente fez: pegou todo aquele choro e botou numa figura só. Então eu chego pra Nina [Rosa Sá, atriz] e falo assim: Nina, você tem que fazer duas coisas: você tem que andar por aí devagarzinho e chorar.

Na verdade eu disse: você vai chorar e picar lenha. Que a idéia era ela ficar picando lenha ao longo da leitura dramática, enquanto chorava. Só que daí acabamos deixando a parte da lenha para o final. Mas então ela serve para condensar, catalisar todo esse lance do choro, da pungência, do sentimento. Ela é a única que não tem quebras nisso. Ela começa e vai. Tanto que até o andar dela é mais deslizante, ela aparece nuns cantos...

Bom, então assim surgiu o personagem. Depois eu tinha que dar um nome para ele. E aí como é que eu ia colocar no programa? Então fiquei pensando e me veio assim: “O espírito da Alemanha que chora”, meio de brincadeira, e acabou ficando.

Francofonia – Mecânica, a última peça da Companhia Silenciosa, e o El Murciélago Desenfrenado, leitura dramática que vocês apresentaram recentemente, eram um tanto quanto abstratas, complexas. Comparando com esses trabalhos, Parasitas é uma peça mais simples, mais acessível ao grande público?
Saidel - Eu acho que é. Mas não que seja uma peça mais simples. O fato de ser mais parecido com outras coisas, estruturalmente, principalmente essa questão dos personagens – são duas famílias –, proporciona uma identificação. Eu acho que é mais simples nesse sentido. Cronologicamente, ela também é mais linear. Ela parece mais simples por causa disso. Ela parece mais teatro no senso comum do termo, e nesse sentido ela é mais próxima do grande público.

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27 de mar. de 2007

Difícil de se definir
Abstrata, provocante, engraçada... Tentar traduzir a experiência de se ver Mecânica, da Companhia Silenciosa, é tarefa complicada

Em Mecânica, várias cenas são construídas a partir do uso de eletrodomésticos, como liquidificador, faca elétrica, vitrola, etc.

Pouco importa que você tenha identificado a telegráfica Peça Coração, de Heiner Müller, no início do espetáculo. Ou que você saiba algo sobre a lei de Kepler ou sobre mitologia grega. Ou sobre motores de carros. Nada disso e nada de muitas outras coisas enunciadas no espetáculo Mecânica – que estreou no dia 23, no Festival de Teatro de Curitiba – fazem diferença.

Na verdade, em Mecânica, tanto ou mais do que identificar, entender uma série de discursos, sejam eles humorísticos, (pseudo)científicos, dramáticos, críticos, etc., a questão reside em apreciar a tudo que é apresentado – forma e conteúdo – de maneira estética. Poética.

Afinal, não é uma peça em que o público acompanha logicamente o desenrolar de uma história, ou mais de uma, com começo, meio e fim. O que vemos são cenas variadas, abstratas, e atores que mais do que encarnar personagens, parecem realizar performances isoladas.

Não obstante, esse caos minuciosamente controlado pela diretora Giorgia Conceição mostra-se muito palatável, instigante de se ver e de se ouvir. Por mais que alguém fique perdido procurando entender alguma coisa, em algum momento o espectador acaba envolvido, de algum jeito.

Seja dando risada de algo intencionalmente patético, como quando os contra-regras à paisana (a própria diretora Giorgia Conceição e Henrique Saidel, responsável pela cenografia) entram no palco e arrumam o cenário ao som de um tecladinho tenebroso de brega; seja se impressionando e também rindo com a inspiradíssima atuação de Léo Glück; seja ficando tonto ou hipnotizado ao ver o ator Fausto Franco dar mais de cinqüenta voltas em torno de si, ao mesmo tempo em que luzes no teto giram também; ou seja se arrepiando ao testemunhar uma menina semi-nua com cabeça de urso (Ana Ferreira) dançando sozinha, com a maior naturalidade.

Alguma coisa, dentro dessas várias cenas desconexas, te pega. Nem que sejam as críticas, um pouco mais óbvias, ao consumismo, ao vazio, à artificialidade tanto da comunicação como das relações humanas. Enfim, dentro da dramaturgia de Léo Glück emanam farpas inclusive para a própria crítica de arte: “Sua obra é graciosa, mas não se entende nada”, assim diz a atriz Ana Ferreira em determinado momento, parodiando um clichê comumente utilizado por jornalistas quando se deparam com obras complexas, seja um filme de David Linch, ou mesmo uma peça como Mecânica.

Todavia, tal chavão não será repetido aqui, não nesta resenha, que também concorda que uma obra de arte não necessariamente precisa ser entendida, ou precisa ter um sentido claro, evidente. Mais do que isso, o importante sempre foi sensibilizar as pessoas de algum modo, e isso Mecânica faz com certeza, de forma singular.

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