23 de mar. de 2010

Teatro)))
Um pesadelo de violência

Em Curitiba, estreia nesta quarta-feira (24) A Língua da Montanha, peça do dramaturgo inglês Harold Pinter, encenada pelo GRUTA

Baseada na obra do dramaturgo inglês Harold Pinter (1930-2008), vencedor do prêmio Nobel de Literatura e um dos principais nomes do teatro contemporâneo, estreia nesta quarta-feira (24) a peça A Língua da Montanha, encenada pelo Grupo de Teatro Amador (GRUTA) do Colégio Estadual do Paraná (CEP). “Off Festival de Curitiba”, a montagem fica em cartaz até sábado (27), no Salão Nobre do CEP, sempre às 20 horas. A entrada é gratuita.

Sem apresentar um enredo claro – com começo, meio e fim ou personagens bem definidos –, a peça aborda questões sobre dominação e violência, mostrando, por exemplo, o tratamento dado por soldados a mulheres e prisioneiros que falam uma língua proibida: a "língua da montanha".

Um esboço dessa obra foi escrito por Pinter em 1985, logo após ele ter visitado a Turquia, onde presenciou a repressão sofrida pelos Curdos naquele país. Finalizando a peça em 1988, o dramaturgo afirmou que ela não aludia exclusivamente à situação dos Curdos, mas sim a de todos os povos que já foram ou continuavam reprimidos.

Pioneira em Curitiba, a montagem do GRUTA tem a coordenação do diretor e ator Hermisson Nogueira, que como de praxe valoriza sobretudo o trabalho corporal de seus pupilos. Truques como fumaça, projeções ou figurinos especiais são dispensados. A participação de um coral regido pelo maestro Alvaro Naldony também contribui para instaurar no Salão Nobre do CEP uma atmosfera de pesadelo.

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11 de abr. de 2008

Entrevista)))
Ela é a mãe de “Jesus”

Ou melhor: criadora do personagem
Montgomery Marcelino Jesuíno de Jesus
Foto Alessandra Haro

Confira a entrevista com a dramaturga Léo Glück (foto), autora da polêmica peça Jesus vem de Hannover

No mês de fevereiro, inúmeros cartazes com a inscrição Jesus vem de Hannover começaram a surgir em paradas de ônibus pela cidade. Uma porção de gente ficou intrigada. Seria uma mensagem de alguma igreja neopentecostal?

Uma análise mais acurada mostrava que não. Era apenas o nome de uma peça da dramaturga Léo Glück, e que foi encenada, com a direção de Henrique Saidel, pela Companhia Silenciosa (grupo mantido por Léo, Henrique e mais Giorgia Conceição).

Desde a sua estréia no Teatro Novelas Curitibanas, Jesus... dividiria opiniões e seguiria causando polêmica ao se apresentar também na mostra Fringe do Festival de Curitiba.

Na entrevista a seguir, a dramaturga Léo Glück – que também atuou na peça – rebate críticas, esclarece alguns temas explorados na montagem e revela um pouco do seu processo criativo como escritora.

*

Francofonia – Dois jornalistas na mídia curitibana chamaram o espetáculo de vocês de amador. O que você tem a dizer a essas pessoas e sobre isso?
Léo Glück – É falta total de referência. Todos têm o direito de não gostar e até de odiar o espetáculo. Mas daí a não enxergar o básico, já é falta de fontes, sabe? Imagine: disseram que o figurino era improvisado! Eu não entendi uma colocação assim. Ficou parecendo birra.

Eu posso não gostar de algumas peças, mas consigo também reconhecer se elas têm qualidade técnica ou não. Por isso acho que esses comentários foram feitos por gente completamente despreparada. Mas o Nelson de Sá, gente que realmente importa, falou bem da peça no blog Cacilda [da Folha de S. Paulo]. Pelo menos ele é abalizado.

Francofonia – E como estão sendo as reações do público em relação à peça? [A entrevista aconteceu no período do Festival de Curitiba]
Glück – No Festival tem bem menos gente vendo porque a concorrência é grande e, às vezes, desleal. Mas muita gente adora e se diverte (leigos, em geral), enquanto outros saem odiando.

Francofonia – Você se sente uma incompreendida com os seus textos?
Glück – Sinto me incompreendida inúmeras vezes. Mas não me importo com isso. Um espetáculo (a arte, em geral) não serve para "explicar" nada. E se tem gente que tem isso como expectativa, que pena. Vão se frustrar cada vez mais.

Francofonia – Como surgiu o texto de Jesus vem de Hannover?
Glück – Faz uns dois anos e meio que escrevi a peça. Sentei na frente do computador, com tudo ligado: som, televisão, e a escrevi em algumas horas... Em cinco, acho.

Francofonia – Você chegou a mexer no texto depois? Costuma reescrever suas peças?
Glück - Não mexi em nada. Não gosto de mexer nos textos depois de "prontos". A não ser que seja uma necessidade específica da montagem. Mas Jesus... não sofreu nenhuma alteração.

Francofonia – Bem, mas de onde nasceu a idéia de criar esse controverso personagem-título, e por que fazê-lo vir especificamente de Hannover?
Glück - A idéia do título eu tive antes de escrever a peça, tomando café num bistrô. Gosto de anotar títulos que acho interessantes. Tenho várias peças inéditas que foram escritas assim, a partir do título, como The Mango Tree, Stoccarda, Linda Blair Entra Na Sala, Fellatio...

Francofonia – Você imaginava que esse título ia deixar as pessoas assim tão instigadas? E que ele seria uma espécie de pegadinha?
Glück – Não, mas da maneira que foi feito o "marketing" em torno do espetáculo, acabou causando isso. É pretensão das pessoas achar que o Jesus é Cristo. Porque ninguém pensa que pode ser outra coisa, que pode ser um sobrenome, como é, aliás.

Francofonia – E quanto aos nomes de Saddam e Napoleão que são mencionados na peça? Eles são quem pensamos?
Glück – Esses são! É ironia, na verdade. Megalomania.

Francofonia – Você pensou em discutir ideologias com a sua peça?
Glück – A ideologia da bandeira esfarrapada, talvez?



"Um espetáculo (a arte, em geral) não serve para 'explicar' nada. E se tem gente que tem isso como expectativa, que pena. Vão se frustrar cada vez mais."

Francofonia – Num primeiro momento, não consegui identificar muitas questões ideológicas sendo discutidas, como algumas pessoas identificaram. Particularmente, vi sim um monte de piadas...
Glück – São várias as questões ideológicas, em minha opinião (embora a minha opinião não seja em nada definitiva). Eu só não acredito que tomar partido seja a melhor maneira de se interpretar qualquer ideologia. E isso está em todos os nossos trabalhos. É realmente uma pena que você só enxergue piada ali. Sempre tentamos dar vez ao microcosmo para falar de assuntos mais "globais". Senão vira panfleto, engajado e "politicamente correto".

Francofonia – Você acha então que Jesus... chega a ser uma peça política e não uma peça trash sobre ciborgues?
Glück – Acho que esta é a peça mais política que já fizemos. Não é uma peça sobre ciborgues. Acho que se trata mais de uma alegoria sobre como estamos sendo invadidos por sistemas não-humanos. Você já foi ao banco e a máquina te disse: "Sistema fora do ar"?

Francofonia – É verdade que a peça aborda a questão da desumanização. Mas talvez essa e outras questões importantes fiquem um tanto ofuscadas pela quantidade de informação que vocês nos bombardeiam... Numa saída da peça, ouvi pessoas dizendo que estavam boquiabertas, perplexas com aquilo tudo.
Glück – Entendo... Mas não confunda 'quantidade de informação' com 'piada'...

Francofonia – Mas as piadas fazem parte dessa massa de informações. Ou não?
Glück – Mas nem chega a ser uma parte tão grande assim... E talvez o que você queira dizer com piada seja o invólucro com o qual a informação está embalada.

Francofonia – Outra coisa que ouvi de algumas pessoas é que a presença de inúmeras digressões absurdas na peça – à la Quentin Tarantino – também causa um certo incômodo. Afinal é todo um discurso que não leva a nada...
Glück – Não temos digressões a valer na vida? Por que não podemos ter na arte? Ou sua vida é dividida cartesianamente em atos? Muita coisa não leva a nada. Acho que Jesus... nem pretende levar ninguém a nada. Reflexão é exercício.

Francofonia – Talvez as pessoas sintam falta de encontrar algo mais profundo na peça...
Glück – Mas se elas não ouvem nada de profundo ali, que fujam loucas! Você acha que não tem? Há uma parte do texto, que é a minha preferida. Está na cena chamada "Desejos Glaciais". Se você não percebe o sentido disso, falhou em tudo...

Francofonia – É quando os aquecedores presentes no teatro são ligados?
Glück – Sim, sim... Calor humano artificial... Aquecimento global... “Seremos substituídos por robôs!” [diz uma das falas na cena]

Francofonia – E sobre a influência do futurismo (o movimento artístico europeu do início do séc. XX)? O futurismo valorizava a guerra, a máquina, a juventude, a velocidade... Isso tudo está muito presente na peça, não?
Glück – Sim, tem tudo isso... Fugacidade, efemeridade. E amor! O futurismo, junto com dadaísmo, é uma das nossas referências, com certeza. Mas esse futurismo também aparece com cara de "ideologia fracassada do passado" às vezes.

Francofonia – Você acabou de falar em “amor”, mas onde ele está na peça?
Glück – Não está. É sobre isso que falamos.

Francofonia – Há mais alguma coisa que você queira dizer sobre Jesus...? Você crê nele?
Glück – Acho que eu mesma não creio em Jesus nenhum!

Francofonia – Tem alguma religião?
Glück – Tenho um lado espiritual independente de religiões...


*Publicada na Revista Idéias nº78

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25 de mar. de 2008

+ Festival de Curitiba
Fernando Bonassi com sotaque alemão
Vinda da Alemanha, Companhia de Tearte apresenta Prova Contrária, adaptação de um romance de Fernando Bonassi que trata das agruras de um casal que militou contra a ditadura


Em Prova Contrária, um homem retorna para sua mulher 20 anos depois de ter desaparecido.

Num momento em que as discussões a respeito da ditadura estão em evidência na mídia – seja pelo aniversário de quatro décadas do ano de 1968, quando foi instituído o Ato Institucional Número Cinco, ou pela minissérie Queridos Amigos, exibida pela rede Globo –, o enredo da peça Prova Contrária (Fringe), que acontece nos dias 26, 27 e 28, no Teatro José Maria Santos, torna-se ainda mais pertinente.

Um homem que participava de movimentos contra o regime militar, e por conta disso estava desaparecido desde 1974, retorna misteriosamente para sua esposa, 20 anos depois de seu sumiço. Isso acontece bem no dia em que a mulher comemora a compra de um apartamento adquirido graças à indenização recebida pela suposta morte do marido.

Outro aspecto interessante da peça – que é uma adaptação de um romance de Fernando Bonassi, publicado em 2003 –, é que a Companhia de Tearte, responsável pela montagem, reúne artistas do Brasil e da Alemanha.

Origem alemã
Oriunda da cidade de Passau (que fica no estado da Baviera, no sudeste da Alemanha), a Companhia de Tearte é dirigida pela professora brasileira Virginia Sambaquy-Wallner, que ministra aulas de português e também realiza seminários e peças a partir de autores brasileiros na Universidade de Passau.

Em 2007, o grupo encenou Morte e Vida Severina, e em 2008 foi a vez de Prova Contrária, que teve sua pré-estréia em janeiro, num teatro da cidade, com legendas em alemão.

“A recepção da montagem pelos alemães foi muito boa”, afirma Lucas Soares Barreto, ator brasileiro que faz o papel do homem desaparecido e é também responsável pela composição da trilha sonora da peça.

Segundo Lucas, quem for assistir a Prova Contrária verá “uma história de amor, política e solidão”. “E uma peça que trata principalmente do sofrimento dos familiares das vítimas da ditadura, que ficaram sem saber onde e como estavam seus entes queridos”, complementa a atriz alemã Verena Bräler, que faz o papel da esposa.

Os dois atores adiantam também que a montagem apresenta três finais possíveis, que colocam em xeque tanto os motivos da volta do marido desaparecido, como se esse retorno é de fato sonho ou realidade.

Serviço
Prova Contrária (adaptação do romance de Fernando Bonassi). Direção: Virginia Sambaquy-Wallner. Companhia de Tearte (Alemanha). Dias 26 às 21h; 27 às 12h e 28 às 18h, no Teatro José Maria Santos. Ingressos a R$ 14 e R$ 7 (meia).


*

Prova Contrária na Usina de Idéias

Dentro da programação da Usina de Idéias no Festival de Curitiba, a Companhia de Tearte promove um debate com a presença do escritor Fernando Bonassi, autor de Prova Contrária, do músico e encenador Flávio Stein, e dos professores Walter Lima Torres (UFPR), Paulo Venturelli (UFPR) e Susanne Hartwig (Universidade de Passau-Alemanha).

A mesa-redonda acontece no dia 27, às 18h, no espaço A FÁBRIKA (Reinaldino de Quadros, 33, acesso pelo Instituto Goethe). A entrada é gratuita.

Serviço
Mesa-redonda com o escritor Fernando Bonassi e especialistas em literatura e teatro. Dia 27, às 18h, no espaço A FÁBRIKA (Reinaldino de Quadros, 33, acesso pelo Instituto Goethe). Entrada gratuita.

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4 de abr. de 2007


Uma bomba necessária
Com o monólogo As Nove Partes do Desejo, que estreou no dia 28, no FTC, Clarisse Abujamra nos sensibiliza para a situação dos países em guerra, em especial o Iraque


Clarisse Abujamra em As Nove Partes do Desejo.

Um clima pesado. Muito. Do começo ao fim. E podia ser diferente? As Nove Partes do Desejo, peça escrita pela americana Heather Raffo e que é apresentada pela primeira vez no Brasil, sob a direção de Marcio Aurélio, trata do sofrimento das mulheres iraquianas.

O palco do José Maria Santos é então coberto inteiramente por lona preta. De cima a baixo. Numa escuridão em que nada se distingue, só vemos uma pequena luz num canto, uma vela acesa, e que de repente começa a se mover. A sombra que a carrega, depois se revela como a atriz Clarisse Abujamra, envolta em um negro chador.

No momento ela encarna uma velha à beira de um rio cheio de despojos humanos, mas depois Clarisse se transformaria em muitas outras mulheres, entre elas uma pintora que, mesmo quando poderia ir embora, luta para continuar fazendo arte em seu país, e uma filha de iraquianos que mora nos Estados Unidos.

Teremos assim, nesse monólogo, um panorama sobre o horror que se passa no Iraque destruído pelas guerras e pelo regime ditatorial de Saddam Hussein. Um panorama construído a partir de diversos olhares femininos.


Então vemos mulheres que sofrem por seus maridos (que quando não estão mortos, estão mutilados), por suas crianças (que nascem anômalas ou adoecem gravemente desde cedo, devido às armas químicas), pela terra devastada, e por elas mesmas: desrespeitadas, seviciadas e sem amor.

E assim vamos nos comprimindo em nossas poltronas diante de todos os horrores que são relatados. Finalmente lembramos que do outro lado do mundo existem países que conseguem ser muito piores do que o nosso, e que existem pessoas nesse exato momento padecendo um verdadeiro inferno em vida.

Nesse sentido, nos aproximamos da personagem que mora nos E.U.A e que assiste à guerra pela televisão (nós no momento a assistimos pelo teatro), sofrendo virtualmente. A diferença é que o sofrimento dela não desaparece quando ela desliga a tv, como o nosso desaparecerá quando sairmos daqui. Afinal ela não poderá esquecer que seus familiares iraquianos estão vivendo aquele pesadelo.

Com essa personagem é verdade também que Clarisse deixa o palco um pouquinho mais leve e iluminado, porém isso não impede que eu pegue no sono, mais ou menos na metade do espetáculo.

Se serve como desculpa a este ato nada nobre da minha parte, explico a vocês que eu tinha acordado muito cedo naquela amanhã, e já eram quase onze da noite, aquele teatro escuro...

Até que, eu cochilando, de repente irrompe uma grande explosão, que me faz dar um salto da poltrona na mesma hora. Eram as bombas que caíam sobre o Iraque, matando uma porção de gente, inclusive a personagem pintora. Com isso também sou trazido de volta à peça, que dali a mais alguns minutos se encerra.

Saio do José Maria Santos sonolento, sentindo-me meio mal. Desço a Treze de Maio para pegar o ônibus, e é inevitável que imagens de uma guerra longínqua ainda povoem a minha mente, ao mesmo tempo em que rio do susto que acabei de levar com aquela bomba explodindo.

Já dentro do ônibus é que surge o insight: pensando bem, a peça, com todo o seu peso e a sua contundência, é que foi uma bomba. Das mais necessárias. Só assim para despertar a nossa habitual letargia diante de um assunto tão sério como a guerra.

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1 de abr. de 2007

Os clichês passam longe daqui
Com muita criatividade, o diretor André Paes Leme utiliza os recursos épicos para aproximar o espectador ao texto de Guimarães Rosa
Vladimir Brichta encarna Augusto Matraga.
A Hora e a Vez de Augusto Matraga, que se apresentou no Teatro da Reitoria no dia 27, é daqueles espetáculos raros em que, ao seu término, todos saem de alma lavada, com a certeza de que existem sim, verdadeiras obras primas no teatro.
É impressionante a eficiência dessa montagem. A começar pelo elenco enxuto, apenas 9 pessoas, que se revezam tanto como atores, narradores, sonoplastas e músicos. E todos, sem distinção, trabalham muito bem.
Dá até raiva. Eu me perguntava: como é que pode, todo mundo atuar desse jeito e ainda cantar e tocar sempre afinado? E essa parte musical, coordenada por Alexandre Elias, não é brincadeira. Há músicas do começo ao fim, executadas com uma porção de instrumentos, como violões, acordeom, zabumba, gaita, calimba...
Depois vem a eficiência do cenário e dos elementos cênicos. Todos os objetos, bastante rústicos por sinal, são reduzidos a formas essenciais e também multifuncionais.
Um carro de boi não é só um carro de boi, mas também vira uma cama, uma casa, e muitas outras coisas. As armas usadas pelos cangaceiros, por exemplo, não são armas reais. São ossos, com formatos que lembram armas convencionais. Ou não.
A luta final entre Augusto Matraga e Joãozinho Bem-Bem é feita com crânios de boi, crânios que também ficam pendurados em bambus pelo palco, e que com a luz projetada sobre eles, formam sombras fantásticas.
Isso só para ilustrar como na montagem há uma riqueza de detalhes muito grande, e que deixa qualquer espectador pasmo. E vale lembrar que todos esses recursos, sumariamente descritos aqui, estão inteiramente a serviço do texto de Guimarães Rosa.
Um texto que, todos sabem, não é fácil de se penetrar num primeiro momento. Nada fácil, igualmente, é adaptá-lo para o teatro. Afinal este conto presente em Sagarana é acima de tudo narrativo, e essa estrutura foi mantida pelo diretor André Paes Leme, que se manteve fiel à obra.
A questão é que, a narração, que num teatro brechtiano, por exemplo, geraria distanciamento entre o espectador e o que é apresentado, sob a direção de André, torna-se drama, ação também.
Nesta A Hora e a Vez de Augusto Matraga, o ator quando narra, o faz com uma rica linguagem corporal, e também com entonações das mais variadas. Sem falar que a narração também faz uso de canções, criadas a partir do próprio texto.
O único problema é que, tudo isso, ao mesmo tempo em que é muito atrativo para o público, no começo parece dinâmico demais, muito rápido. Difícil de se apreender.
Confesso que, até a parte em que Augusto Matraga leva a coça dos capangas do Major Consilva, eu não estava entendendo patavinas do que era dito. E a culpa não era dos atores, que apresentaram uma boa dicção. Simplesmente eu ainda não tinha conseguido “entrar” no texto e na história.
Mas justamente nesse momento decisivo, um dos ápices da peça, é que tudo mudou, pelo menos pra mim. Porque numa cena em que muito provavelmente outros diretores fariam com que Matraga apanhasse de forma realista, André colocou os jagunços batendo violentamente numa peça de carne.
Vladimir Brichta, que interpretou Matraga, ficava apenas num canto encolhido, sofrendo virtualmente os golpes. Quer dizer, ao invés de apresentar uma cena brutal, que todo mundo já está acostumado a ver, André Paes a transformou numa cena cômica, inusitada.
Em meio às gargalhada, um homem ao meu lado ainda perguntou: “Isso é carne mesmo?” E apesar de engraçada, a cena não ficou menos contundente, pois você sabe que o personagem está sofrendo.
E o mesmo aconteceu quando Matraga é marcado a ferro, como gado. Um ator então surge com uma frigideira quente, e joga nela um bife. Barulho e cheiro de carne queimando. Brichta grita de dor. O público vai ao delírio.
A partir daí, não tive como não ser fisgado pela peça. Tudo era tão vivo, tão interessante, que meus ouvidos finalmente se “abriram” ao idioma roseano.
A partir de então eu compreendia tudo. De queixo caído.
*
Uma guerra que precisa voltar à cena
Companhia Silenciosa apresenta a leitura dramática de Jesus vem de Hannover no Festival de Teatro de Curitiba

Além de ter encenado a inquietante Mecânica neste Festival de Teatro de Curitiba, a Companhia Silenciosa forneceu uma bela amostra de um espetáculo que está por vir, com a apresentação da leitura dramática de Jesus vem de Hannover, que aconteceu no dia 28 de março, no Teatro Experimental da UFPR (TEUNI).

Nesta leitura, mais do que colocar atores sentadinhos diante de uma mesa (como costumam fazer algumas companhias, sem apelo cênico algum) para declamar a dramaturgia de Léo Glück, o diretor Henrique Saidel optou por ir um pouco mais além.

Primeiro, dispondo os atores entrincheirados nas aberturas subterrâneas do palco do TEUNI. Assim, em seu pequeno bunker, cada ator vestia um óculos divertido, mais uma camiseta com o nome de seu personagem estampado e, finalmente, tinha em mãos o texto de Glück, que seria a munição para a guerra que estava prestes a começar.

Uma trilha sonora marcial, de filmes como A ponte do rio Kwai, também já dava o tom beligerante, que iria contrastar com a pose burlesca dos atores e suas falas.

A leitura logo se mostra uma espécie de jogral nonsense entre os bizarros e sumários personagens de nome Harold, O Furão, Mimi, Merga, A Maníaca, e o protagonista Montgomery Marcelino Jesuíno de Jesus.

Os seis travam então uma série de diálogos curtos, inusitados e desnecessários, isso se alguém ainda esperava por uma história com um sentido fechado e evidente.

Frases do tipo “Dizem que massagem nos seios evita o câncer”; “Você é um Cyborg?”; “O Renascentismo era uma putaria franciscana”, cruzam o palco e voam em direção à platéia como balas perdidas, ou melhor, “frases perdidas”, provocando as mais diversas reações no público.

Há quem ria frouxo com as piadas ácidas da Companhia Silenciosa, há quem ria envergonhado dos chistes politicamente incorretos – como quando dizem que é impossível de se preparar um x-salada chinês em casa, visto a imundície ser irreproduzível –, há quem ria amarelo por não ter compreendido as inúmeras tiradas irônicas, e há quem torça o nariz para toda essa verve inconseqüente.
Ao mesmo tempo, é difícil que alguém não tenha esperado por um maior esclarecimento sobre o intrigante personagem que leva o nome de Jesus. Esclarecimento que obviamente não surge nunca, porém gera uma saborosa tensão ao longo da peça.

Nada a ver com o messias de Belém, o Jesus de Léo Glück vem não só de Hannover como também das terras de Samuel Beckett e de todo o teatro do absurdo.

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27 de mar. de 2007

Difícil de se definir
Abstrata, provocante, engraçada... Tentar traduzir a experiência de se ver Mecânica, da Companhia Silenciosa, é tarefa complicada

Em Mecânica, várias cenas são construídas a partir do uso de eletrodomésticos, como liquidificador, faca elétrica, vitrola, etc.

Pouco importa que você tenha identificado a telegráfica Peça Coração, de Heiner Müller, no início do espetáculo. Ou que você saiba algo sobre a lei de Kepler ou sobre mitologia grega. Ou sobre motores de carros. Nada disso e nada de muitas outras coisas enunciadas no espetáculo Mecânica – que estreou no dia 23, no Festival de Teatro de Curitiba – fazem diferença.

Na verdade, em Mecânica, tanto ou mais do que identificar, entender uma série de discursos, sejam eles humorísticos, (pseudo)científicos, dramáticos, críticos, etc., a questão reside em apreciar a tudo que é apresentado – forma e conteúdo – de maneira estética. Poética.

Afinal, não é uma peça em que o público acompanha logicamente o desenrolar de uma história, ou mais de uma, com começo, meio e fim. O que vemos são cenas variadas, abstratas, e atores que mais do que encarnar personagens, parecem realizar performances isoladas.

Não obstante, esse caos minuciosamente controlado pela diretora Giorgia Conceição mostra-se muito palatável, instigante de se ver e de se ouvir. Por mais que alguém fique perdido procurando entender alguma coisa, em algum momento o espectador acaba envolvido, de algum jeito.

Seja dando risada de algo intencionalmente patético, como quando os contra-regras à paisana (a própria diretora Giorgia Conceição e Henrique Saidel, responsável pela cenografia) entram no palco e arrumam o cenário ao som de um tecladinho tenebroso de brega; seja se impressionando e também rindo com a inspiradíssima atuação de Léo Glück; seja ficando tonto ou hipnotizado ao ver o ator Fausto Franco dar mais de cinqüenta voltas em torno de si, ao mesmo tempo em que luzes no teto giram também; ou seja se arrepiando ao testemunhar uma menina semi-nua com cabeça de urso (Ana Ferreira) dançando sozinha, com a maior naturalidade.

Alguma coisa, dentro dessas várias cenas desconexas, te pega. Nem que sejam as críticas, um pouco mais óbvias, ao consumismo, ao vazio, à artificialidade tanto da comunicação como das relações humanas. Enfim, dentro da dramaturgia de Léo Glück emanam farpas inclusive para a própria crítica de arte: “Sua obra é graciosa, mas não se entende nada”, assim diz a atriz Ana Ferreira em determinado momento, parodiando um clichê comumente utilizado por jornalistas quando se deparam com obras complexas, seja um filme de David Linch, ou mesmo uma peça como Mecânica.

Todavia, tal chavão não será repetido aqui, não nesta resenha, que também concorda que uma obra de arte não necessariamente precisa ser entendida, ou precisa ter um sentido claro, evidente. Mais do que isso, o importante sempre foi sensibilizar as pessoas de algum modo, e isso Mecânica faz com certeza, de forma singular.

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25 de mar. de 2007

O infortúnio é sereno

O ocaso dos italianos anarquistas torna-se belo em Colônia Cecília, peça já consagrada sob a direção de Ademar Guerra, e que volta aos palcos conduzida por João Luiz Fiani


O diretor João Luiz Fiani dedicou o espetáculo a Ademar Guerra, falecido em 1993, e a Lala Schneider, falecida no dia 28 de fevereiro deste ano.

23 anos após ser encenada com muito sucesso por Ademar Guerra para o Teatro de Comédia do Paraná (TCP), Colônia Cecília ganha vida novamente, estreando no primeiro dia do Festival de Teatro de Curitiba.

Num Guairinha quase lotado e fervendo pela falta de ventilação, Colônia Cecília mostrou-se um espetáculo leve, apesar de retratar os percalços e a ruína da experiência anarquista implementada por imigrantes italianos no município de Palmeira, PR, em 1890.

O fato da autora Renata Pallotini apresentar um panorama mais geral do que se passou, ao invés de se aferrar à trajetória de um protagonista, é um dos fatores que fazem a peça ser muito mais reflexiva do que dramática. É claro que o personagem central é Giovanni Rossi (interpretado por Enéas Lour), afinal era ele o principal articulador e idealizador da comuna. Entretanto, o sofrimento e as desventuras que acontecem não são exclusivos dele. São coletivos.

Então vemos os trabalhadores entretidos com suas plantações, com a construção de um moinho, mulheres lavando roupa, e as contradições que essas pessoas enfrentaram. A abolição da propriedade privada é algo fantástico. Mas quem é que quer “socializar” a sua mulher? E o trabalho? E para convencer preguiçoso a pôr a mão na massa? Eis alguns dos obstáculos que os colonos tiveram que enfrentar. Sem contar as dificuldades com a lavoura, a falta de incentivos do estado, cobranças absurdas de impostos e a morte pelo crupe.

Até vir o golpe mais vil e avassalador, perpetrado por um próprio companheiro, o argentino José Gariga, que surrupia todo o dinheiro que eles possuíam. É a decepção total com o ser humano, é o fim da utopia anarquista e da Colônia Cecília.

Porém, mais do que apresentar tal saga como um espetáculo naturalista, ou ser uma peça didática, Colônia Cecília configurou-se mais como um painel poético de todos esses acontecimentos históricos. Digo poético porque há poesia naqueles personagens, mesmo que eles não sejam tão bem desenvolvidos pela dramaturga. Mesmo assim, no pouco que dizem e que agem, sentimos que eles possuem alma.

Mérito de Renata Pallotini, assim como dos atores e da produção como um todo. A iluminação de Beto Bruel, bastante clara e suave ao mesmo tempo, reluzindo nos belos pinheiros criados pelo cenógrafo Leopoldo Baldessar, juntamente com a música feita ao vivo, também contribuíram para completar esse singelo retrato sobre o acaso daqueles que ousaram pôr em prática os seus ideais. E se estreparam, é verdade, mas mesmo assim saímos do teatro sentindo orgulho da coragem que tiveram.


Sobre a primeira montagem de Colônia Cecília

Com texto de Renata Pallotini e direção de Ademar Guerra, Colônia Cecília foi montada pelo TCP em 1984, como uma produção comemorativa aos 100 anos do Teatro Guaíra. Sucesso de público, a peça recebeu o troféu Gralha Azul em cinco categorias: melhor espetáculo, melhor ator (Emílio Pitta), melhor atriz (Lala Schneider), iluminação (Beto Bruel) e composição musical (Cristina Beduschi).

Dos que participaram da primeira montagem e que integram a atual, estão João Luiz Fiani, outrora ator e a agora diretor, e Beto Bruel, iluminador nas duas.

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15 de mar. de 2007

Jovens companhias locais
unem forças no Festival de
Teatro de Curitiba




Dentre as muitas atrações do Festival de Teatro de Curitiba que se inicia no dia 22 de março, vale a pena conferir a “Mostra Novos Repertórios”, a qual apresentará um panorama da jovem produção teatral da cidade.
A mostra reúne as companhias “A Armadilha”, “Companhia Silenciosa”, “Pausa Companhia” e “Companhia Provisória”, que vêm realizando um trabalho artístico consistente, baseado em muita pesquisa e antenado com as novas tendências teatrais.
Os espetáculos apresentados serão “Os Leões”, (Armadilha), “Mecânica” (Companhia Silenciosa), “Menos Emergências” (Pausa) e “Após ser jogado no rio e antes de me afogar” (Companhia Provisória).
Eles ficam em cartaz no Teatro Experimental da UFPR (TEUNI), de 22 de março a 1 de abril, dentro da programação do Fringe. Além disso, de 27 a 30 de março, serão apresentados ao público, também no TEUNI, leituras dramáticas de textos inéditos.
Os ingressos custam R$14 e R$7 (meia-entrada), sendo que as leituras dramáticas têm entrada franca. O TEUNI fica na Trav. Alfredo Bufren, 140, Praça Santos Andrade. Informações pelo tel.: 3310-2736.

Programação dos espetáculos

Os Leões Dias: 22, 23 e 31 às 24h; 25 e 27, às 18h; 24, 30 de março e 1 de abril, às 21h. Comédia. Levemente inspirado na obra do escritor argentino Jorge Luis Borges, o texto mostra dois homens que dividem um apartamento numa cidade pouco agitada em algum país indefinido. Enquanto o tempo passa e eles seguem o seu cotidiano, coisas estranhas acontecem, objetos desaparecem, informações se contradizem e os diálogos se tornam cada vez mais improváveis. Há uma eterna impressão de que há algo errado com a realidade na qual esses dois homens convivem. Companhia: A Armadilha. Texto: Pablo Miguel de la Vega y Mendoza. Tradução e adaptação: Diego Fortes. Direção: Nadja Naira. Elenco: Alexandre Nero e Diego Fortes.
Mecânica Dias: 24 e 25, às 24h; 29 e 31, às 21h; 23, 26, 28 de março e 1 de abril, às 18h. Comédia. Onde vê-se a pele leia-se a necessidade do reparo. O verbo sem anestesia, a amoniacal harmonia do movimento. Todos os chicotes sem capataz, o mito está estabelecido. A mulher entreaberta, na fresta o olho espião. A conexão dos corpos, a atração dos ferros. Mecânica é a catapulta do amor. Companhia Silenciosa. Dramaturgia: Léo Glück. Encenação: Giorgia Conceição. Elenco: Ana Ferreira, Léo Glück e Angelo Cruz. Duração: 50’.
Menos Emergências Dias: 22 e 23, às 21h; 26, 28 e 29, às 23h59; 27, às 21h e 23h59; e 30 de março, às 18h. Drama. Três histórias curtas. A primeira gira em torno de uma mulher que se casa muito cedo. A segunda reconstitui uma cena de massacre numa escola. A terceira faz o retrato de um casal que veleja pela borda do mundo, enquanto o filho fica trancado em casa, numa cidade atingida pela guerra civil. Em cena, nenhum dos personagens. Apenas quatro pessoas a contar (ou criar) histórias. Pausa Companhia Texto: Martin Crimp. Direção: Marcio Mattana. Elenco: Andréa Obrecht, Gabriel Gorosito, Renata Hardy e Rodrigo Ferrarini. Duração: 60’.
Após ser jogado no rio e antes de me afogar Dias: 24, 29 e 31, às 18h; 25, 26 e 28, às 21h; 30 de março e 1º de abril, às 24h00. Romance. A história de um cachorro veloz que adora apostar corridas com outros cachorros no mato, e que tem uma visão muito particular dos seres humanos ao seu redor. Companhia Provisória. Texto: Dave Eggers. Adaptação: Companhia Provisória. Direção: Nina Rosa Sá. Elenco: Cleydson Nascimento, Elói Magalhães, Gessé Malmann e Débora Vecchi.Duração: 50`.
Leituras dramáticas

Jesus vem de Hannover Dia 28, às 14h30. Não há escolha para as personas de Jesus vem de Hannover: sua desistência da vida é a única condição humana laudável. Em uma obra cujo sentido está para fora do que se vê, é reconfortante saber que o problema, caso exista, não está em nós e sim no eclético atavismo que nos escolhe a seu bel-prazer. Seis vidas prévias que necessitam eliminar seu autor, de apetites grosseiros e rudes instintos, com ligeiro apego pelo afeto não dado. O humano é a célula-mãe deste texto em cujas profundidades não há meios de se mergulhar. Companhia Silenciosa. Texto: Léo Glück

Ninguém assiste ao vídeo Dia 30, às 14h30. Elizabeth é uma dona de casa com vagas preocupações sociais, que acaba de sair de um casamento e, no decorrer da peça, vai transformar-se numa eficiente mulher de negócios. Além de ser uma sátira cruel ao mundo da pesquisa de mercado, a peça é também um retrato das desilusões da Europa depois da vitória do capitalismo. Pausa Companhia. Texto: Martin Crimp.
(How to play) The love games Dia 29, às 14h30. Um homem dá uma entrevista coletiva perdoando seu próprio assassino. Essa situação, que estrutura a principal ação dramática da peça, é, em alguma medida, baseada no depoimento do criminoso Mark Chapman, assassino de John Lennon, que, ao pedir junto à justiça americana sua liberdade condicional, alegou que seria perdoado pela vítima. Lennon, Chapman, todas as circunstâncias do crime - entre elas, a questão da superexposição aos meios de comunicação e a ambição cega pela celebridade - e o romance Moby Dick, de Herman Melville, servem de material temático para o enredamento da trama do texto, que, essencialmente, busca tratar das obsessões humanas. Companhia Provisória. Texto: Daniela Pereira de Carvalho.
Mentira! Dia 27 às 14h30. Seis pessoas dividem um apartamento alugado. Os homens e mulheres se desejam em segredo e quando a primeira traição é revelada, uma sucessão de vinganças e novas traições acontecem. A situação sai do controle até o ponto em que é firmado um acordo de transparência e aceitação de todo e qualquer envolvimento entre os membros da casa sem retaliação ou crítica. O texto transita entre a necessidade de se manter uma vida monogâmica baseada no romance e o instinto masculino e feminino de experimentar a sexualidade com vários parceiros e rediscute a definição do que é “normal” e do que é a traição. Companhia: A Armadilha. Texto: Alejandro Kauderer.

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