3 de abr. de 2010

Dança)))
Dentro de nós, o samba
Foto: site www.andreajabor.com.br

Na batucada, as meninas do grupo Arquitetura do Movimento também botam pra quebrar

Uma viagem pelo universo do samba e uma prova de que esse ritmo é parte indissociável da identidade de qualquer brasileiro – excluindo-se, é claro, os que são ruins da cabeça e doentes do pés. Eis a peça Ao Samba, a cruz, o xis e o esplendor, da bailarina e coreógrafa Andrea Jabor. Até ontem a montagem da artista carioca esteve em cartaz no Teatro Vila Velha, dentro da programação do 4°Festival Internacional Viva Dança.

Participando da apresentação também como uma narradora, Andrea explicou um pouco sobre o processo de criação de Ao Samba..., que dá continuidade a uma pesquisa iniciada em seu trabalho anterior, intitulado As cinco peles do samba (2008). Segundo a coreógrafa, um de seus objetivos era investigar o modo particular como as pessoas se relacionavam com a cultura do samba, que no fim une a todos nós.

Nesse processo, Andrea não deixou de investigar a si própria. Compartilhando suas memórias com o público, ela lembrou como sua mãe adorava carnaval, e como isso lhe influenciou completamente. Foi inclusive com a ajuda da mãe que Andrea, ainda criança e vivendo em Londres, criou a sua primeira coreografia na escola. Fez suas colegas inglesas se vestirem de baianas e assim elas requebraram ao som de Aquarela do Brasil.

Depoimentos como esse são usados para compor uma dramaturgia leve e poética. A narração de Andrea dá coesão ao verdadeiro show das cinco bailarinas presentes na montagem. Além de dançar, as meninas ainda cantam e fazem batucada na maior malandragem.

A fluidez com que elas passeiam por inúmeras vertentes do samba impressiona. Suas coreografias fundem samba no pé, gafieira e partido-alto com drum and bass, rap e contato-improvisação. Até o pagodear baiano, marcado por “rebolations” e “tchans” ganha o palco, acompanhado do legítimo samba do recôncavo e de outras regiões nordestinas.

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12 de dez. de 2008

Literatura)))
A poesia da vida em um livro de contos
Em Para que as árvores não tombem de pé, Maria Célia Martirani apresenta uma prosa burilada e carregada de sentimento



Quinze anos depois de lançar seu primeiro livro de contos, o pouco divulgado Recontando (editora Edicon), Maria Célia Martirani, escritora paulistana, radicada em Curitiba, retorna ao cenário literário com a publicação de Para que as árvores não tombem de pé/ Affinché gli alberi non cadano in piedi, pela Travessa dos Editores.

O livro surge com 41 textos curtos e já nasce internacional em sua edição bilíngüe, português – italiano. A tradução ficou a cargo do professor Carlo Baldessari e da própria Maria Célia, que é também professora de italiano.

Em Para que as árvores não tombem de pé, Maria reafirma o domínio de sua arte. Como em Recontando, mais do que apresentar enredos mirabolantes, ela prioriza um trabalho de linguagem e explora ao máximo a sua capacidade de descrever os estados da alma de seus personagens.

Dessa forma, consegue criar textos que, mesmo sem grandes peripécias, apresentam elementos de tensão. Como o conto “Laranjas e Metal”. Externamente, nele nada acontece. Tem-se apenas um velho solitário diante de uma fruteira vazia. Porém, quando um narrador passa a revelar o que existe no íntimo desse ancião, eis que brotam conflitos que em um primeiro momento estavam invisíveis:

A vida toda, inteira e só a ela dedicara as chamas vívidas do sentimento “que arde sem doer”. Que acabou doendo, doeu muito e ainda doía, já que inevitável a partida. Que o deixassem, então estar quieto, remoendo sossegado seus silêncios... Urgia fechar-se à trepidação ruidosa dos veículos lá fora, para compenetrado, sentir a pulsação compassada e larga dos trens de dentro, estendendo-se roucos e lentos pelas infindáveis curvas de seu lembrar.

Outro exemplo é o “conto-parábola” que dá nome ao livro. Este narra simplesmente a trajetória de um pinheiro que, por sua rigidez excessiva, acaba tombando um dia. Mesmo com este enredo exíguo, ao seu modo, o conto oferece suspense, que é construído através de uma seqüência precisa de palavras, vírgulas e sinais de reticências empregados por Maria Célia.

A queda, sempre fatal. Nada que amenizasse o desalinho das copas verdíssimas, caindo em abandono. Susto, estremecimento... E aquele ruído surdo, compacto, fulminante... Assim caíam todas as nobres madeiras de lei, as de hirtos troncos, envergadura encorpada. Nelas havia uma beleza triste, até mesmo no tombo...

Ao leitor de primeira viagem que esteja muito apegado a textos secos e velozes, é bom avisar: quando ler Para que as árvores não tombem de pé, deixe a ansiedade de lado e embarque no ritmo de cada história. A prosa de Maria Célia Martirani é calma e tão certeira quanto a anaconda que deglute o malvado, no conto “O índio que estourou”.

Não conseguiu nem gritar, quando, abruptamente, uma jibóia viscosa e gigante lhe enroscou as pernas, derrubando-o na água. Estrangulou-o, numa tortura lenta e úmida. Triturou-lhe os ossos e passou a engoli-lo inteiro, devagar. Ainda era cedo e tinha todo tempo para ingerir suas carnes...

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Sobre a autora



Maria Célia Martirani nasceu a 21 de agosto de 1959, em São Paulo. Descendente de italianos, iniciou os estudos na língua de seus avós logo cedo, no tradicional Colégio Dante Alighieri. Hoje é doutora pela USP e dedica-se a pesquisas na área de literatura italiana e literatura comparada. No Brasil, é uma das maiores conhecedoras da obra do escritor Alessandro Baricco.

Morou por sete anos em São Miguel do Oeste (SC), onde atuou como professora de escola pública. Tal experiência, em meio rural, foi particularmente enriquecedora para a autora e se veria refletida em alguns contos de seu primeiro livro. Em 1989, Maria Célia se mudou para Curitiba, cidade em que reside até o momento.

Sua estréia na literatura se deu com Recontando, publicado em 1993 pela Edicon. Em 2008, lança nova reunião de histórias, intitulada Para que as árvores não tombem de pé, pela Travessa dos Editores. A edição sai em formato bilíngüe, português-italiano.


*
Entrevista: Maria Célia Martirani

Francofonia – Você sente que há muita diferença entre a escrita de Recontando e Para que as árvores não tombem de pé? Quais são as diferenças e as afinidades desses dois livros?

Maria Célia Martirani – Acho que tanto meu primeiro livro, Recontando, como este segundo, Para que as árvores não tombem de pé, surgiram de minha necessidade de expressão, especialmente do que eu intuía ou lia, a partir dos seres e das coisas ao meu redor.

Nos dois casos, posso afirmar que sempre quis fazer prevalecer em mim o ouvido atento e o olhar aguçado para “recontar”, transfigurar a meu modo, as histórias que germinam o tempo todo em torno a nós (e pelas quais me deixo tocar).

Então, o que aproxima os dois livros é a idéia de um eixo ficcional, valorizando a dimensão narrativa inerente às coisas, aos seres, às situações. Porém, o segundo me trouxe uma liberdade maior, talvez uma soltura, quanto aos modos de narrar que eu não conhecia anteriormente, não só do ponto de vista temático, como também formal. Por exemplo, dei-me ao prazer de investir mais em narrativas, ora concisas (como “Esquina”), ora muito longas (como “Pro-Vocação”), de me deixar levar pela idéia da relativização do contar, a ponto de criar contos duplos ou triplos, que dialogam e se espelham (como “O Rosto da Página” e “Página sem Rosto”).

Francofonia – Por que você demorou tanto para publicar seu segundo livro?
Maria Célia Martirani – Porque não me sentia madura, nem forte o suficiente para fazê-lo. Gosto muito de citar uma frase de Guimarães Rosa, na qual acredito. Algo assim: a de que “os livros nascem quando as pessoas pensam... É necessário dedicar muito tempo a um pensamento. Daí seriam escritos livros melhores...” Acho que cada um precisa de um tempo interior (muito subjetivo e extremamente variável de indivíduo a indivíduo) de elaboração, para depois conseguir ter o fôlego necessário para a exposição, a publicação.

Francofonia – Em que período foram escritos os contos de Para que as árvores não tombem de pé?
Maria Célia Martirani – Comecei a esboçar alguns dos contos ainda em 2000, 2001, ou seja, há sete anos. Mas eu diria que o livro começou a “tomar corpo” mais efetivamente, a partir de 2004, quando comecei a viajar a São Paulo, semanalmente, devido ao curso de Pós Graduação na USP e me lembro que, naquela época, quase não conseguia ficar um só dia sem escrever.

Francofonia – Como surgem as suas histórias? Como costuma ser o seu processo criativo?

Maria Célia Martirani – Acredito que minhas histórias germinam, brotam da vida. Como já afirmei anteriormente, acho que tudo possui uma dimensão narrativa muito forte. O mundo fala conosco o tempo todo. É só parar para ouvir... E, depois, recontar... Minhas histórias surgem de situações muito simples, comuns, corriqueiras até... Mas o que conta, às vezes, é como isso tudo consegue “me provocar”, como isso se processa em mim.

Reconheço ser extremamente prazeroso, no árduo processo criativo, o imaginar, viajar, sem limites, por onde as rédeas da imaginação me conduzirem. Mas, o tempo todo, como uma espécie de professor exigente, há o trabalho disciplinar, o do quotidiano hábito de escrever e de colocar as tais rédeas soltas no papel, numa incessante carpintaria do texto.

Francofonia – Como surgiu a idéia de escrever contos duplos, como “O Rosto da Página” e “Página sem Rosto”, que se completam?
Maria Célia Martirani – A idéia dos “contos duplos” surgiram, porque eu sempre achei muito instigante, em arte, a idéia de criar variações em torno de um mesmo tema. Lembro, por exemplo, de alguns estudos de Volpi, aqueles famosos de várias possibilidades sobre o tema das bandeirinhas juninas ou de alguns exercícios para piano de Czerni, em que se mantem o eixo melódico, com pequenas nuances que dão um novo tom à composição final. No limite, ao escrever “O Rosto da Página” e “Página sem Rosto”, quis, num exercício lúdico, brincar com essas variações, com a relativização de dois pontos de vista sobre o mesmo tema: o drama de ser ou não ser personagem.

Francofonia – Certos contos seus podem ser visto como poemas? Você se considera poeta também?
Maria Célia Martirani – Muitos de meus leitores percebem, no que crio, traços do que se poderia chamar de “prosa poética”. Sinceramente não me considero poeta, mas apenas alguém que, como aconselha Drummond, gosta de se atrever a “mergulhar surdamente no reino das palavras” e que, roseanamente, mantém uma certa reverência para com o “canto e a plumagem das palavras”...

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29 de nov. de 2008

Teatro)))O obscuro que fascina
Com ousadia e competência, GRUTA encenou Atentados, peça do dramaturgo inglês Martin Crimp


Sem figurinos especiais, maquiagem ou cenário: GRUTA é adepto de um teatro essencial, que extrai do trabalho do ator a sua maior força.

Quem viu, viu. Em uma temporada meteórica (de 24 a 27 de novembro, três vezes ao dia, no auditório Bento Mossurunga), o grupo de teatro amador do Colégio Estadual, mais conhecido como GRUTA, encenou, pela primeira vez na cidade, a peça Atentados (Attempts On Her Life, 1997), do dramaturgo Martin Crimp.

Como no ano passado, com a excelente montagem de Aurora da Minha Vida, de Naum Alves de Souza, mais uma vez o GRUTA apresentou um trabalho ousado e de alto nível, feito que merece ser aplaudido de pé diante da complexidade do texto de Crimp, este inglês nascido em 1956 e que é representante de um teatro dito “pós-dramático” (vertente teatral contemporânea, influenciada diretamente pelo Teatro do Absurdo).

Diferente de uma peça clássica, dividida em cenas e atos, Atentados é composta por 17 quadros independentes, os quais, em comum, mencionam sempre o nome de uma tal “Anne”, figura que, como o “Godot”, de Samuel Beckett, nunca aparece realmente em cena. É apenas evocada através de narrações.

Entidade feminina e fluídica, Anne é descrita de várias maneiras ao longo da peça. Em um quadro ela é uma terrorista, em outro é uma artista. Em certo momento é uma mulher que teve os filhos mortos na guerra e, num ponto extremo, vira o nome de um novo modelo de carro. Anne, portanto, é “qualquer” (“any”, em inglês) mulher ou coisa, o que fica claro até por esse jogo de palavras.

Desafios

Se em termos de conteúdo, a peça é complicada, formalmente, é também um deus-nos-acuda, como lembra Hermison Nogueira, professor de teatro do Estadual que coordenou essa criação coletiva do GRUTA. “No texto de Crimp não há rubricas, nem demarcações de personagens. São usados apenas travessões, o que significa que alguém, que não sabemos quem, começou a falar”, diz Hermison.

“O texto então nos permite fazer qualquer coisa. O próprio autor diz que não é preciso montar os 17 quadros [nessa montagem foram escolhidos seis deles] e que eles podem ser ordenados livremente. Essa liberdade é boa por um lado, mas também gera dor de cabeça. Como distribuir entre os atores um texto que não possui personagens?”

De acordo com Hermison, a forma que o grupo encontrou para lidar com a peça foi, primeiro, trabalhar bem o corpo, com exercícios e experiências cênicas, para só depois “pôr o texto no corpo”. “Encenadores mais naturalistas, que priorizam o texto e trabalham primeiro com ele, até podem achar que fizemos uma blasfêmia, mas eu não me importo. No GRUTA temos liberdade para experimentar”.

De fato, experimentações não faltaram. O grupo se manteve longe de caminhos fáceis e buscou sempre o risco. A começar pela opção de dispor o público no palco, interagindo com os atores. Mais emblemático ainda é lembrar da cena em que uma atriz declama sua fala em cima de uma mesa que é balançada o tempo todo, ou quando um ator suspende uma bola de boliche sobre a cabeça de colegas deitados no chão.

Esse constante pôr-se em risco, somado a uma estética sombria adotada pelo grupo (também com recursos simples como black-outs constantes, uso de lanternas, som ao vivo etc.), casou perfeitamente com o texto sinistro de Martin Crimp, o qual, vale ressaltar, também possui fartas doses de humor. Esse humor, bastante irônico, foi igualmente bem contemplado pela montagem do GRUTA, em especial na cena em que um dos atores declama o soturno quadro “A Garota ao Lado”, na forma de um blues provocante.

Para quem pensa que um texto fragmentado e repleto de referências (inacessíveis para muitos) só provoca enfado e repulsa no público, o GRUTA mostrou como a obscuridade pode ser instigante.


*Publicada no Espaço 2 do
Jornal do Estado (2/12/2008)

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28 de ago. de 2008

Teatro)))
Thomas Bernhard com espírito curitibano
Na peça Árvores Abatidas, dirigida por Marcos Damaceno, a Viena do escritor Thomas Bernhard parece tal e qual Curitiba


Rosana Stavis encarna o narrador de Árvores Abatidas.

Embora nascido na Holanda e radicado na Áustria, o escritor Thomas Bernhard (1931 – 1989) parecia um curitibano. É o que pudemos constatar em Árvores Abatidas, romance de Bernhard que foi adaptado pela primeira vez para o teatro pelo diretor Marcos Damaceno. A montagem ficou em cartaz durante o mês de julho e início de agosto no galpão que Damaceno utiliza como teatro nos fundos de sua casa, na rua 13 de maio.

“Os vienenses não podem ver uma pessoa boa, importante, e um dia derrubam-na como a um monumento que não lembram que eles próprios ergueram ali.” O que dizer de uma frase como essa, presente em Árvores Abatidas?

Impossível não comparar a autofagia vienense, que é escancarada nessa obra, com a conhecida autofagia curitibana, já descrita por Jamil Snege na crônica Como tornar-se invisível em Curitiba. “Cada vez que alguém, lá fora, reconhecer com isenção de ânimo que você está produzindo obra ou feito significativo – o seu grau de invisibilidade aumenta em Curitiba”, escreveu ele.

Além de tratar do ambíguo sentimento de amor e ódio por uma cidade que esmaga seus talentos como um moinho, Árvores Abatidas expõe também uma série de críticas ao teatro vienense, o que impressionantemente serviu direitinho para o teatro daqui.

Público, atores, diretores, dramaturgos e críticos, todos os elos da cadeia teatral são detonados em Árvores Abatidas, aspecto da obra que foi especialmente destacado na montagem de Marcos Damaceno, inclusive com a citação de nomes de artistas conhecidos, como o diretor e dramaturgo Felipe Hirsch e a diretora e produtora Nena Inoue.

O enredo
No romance publicado em 1984, um escritor cinquentão – muito parecido com o próprio Thomas Bernhard – narra a experiência de ter ido a um jantar repleto de artistas na casa de um antigo casal de amigos, os Auersberger, que, naquele momento, ele não mais suporta.

O jantar, que conta com a presença de um ator veterano do Burgtheater (teatro nacional austríaco), torna-se um martírio para o escritor, ainda mais que, no mesmo dia, pela manhã, acontecera o enterro de sua amiga Joana, também íntima dos Auersberger e de outros convidados.

A adaptação
Narrada em primeira pessoa no livro, essa história ganhou na peça a forma de um monólogo interpretado pela atriz Rosana Stavis, que fez um papel análogo ao do personagem escritor.

Porém, em suas reflexões sobre seus ex-amigos, sobre si e sobre a cidade, o discurso do protagonista no romance de Bernhard é muito mais dispersivo e menos humorístico do que foi apresentado em cena.

Na sua interpretação, em boa parte do tempo, Rosana Stavis levou Árvores Abatidas para uma comédia escrachada, em que as repetições típicas do estilo de Bernhard foram convertidas em recursos cômicos (não muito risíveis para mim).

As insistentes referências feitas ao “ator que até faz telenovela” (“o ator do Burgtheater”, no original), por exemplo, viraram um bordão, realçado com um “plim, plim” saído do violino de Roger Vaz, músico responsável pela trilha sonora ao vivo.

Diante dessa atuação frenética de Rosana Stavis, tão logo a peça começou, confesso que tentei imaginar como ficaria a montagem com uma interpretação mais contida da atriz. O que felizmente vi concretizado nos momentos em que a personagem dela se recordava de Joana, a amiga falecida, e quando ela relembrava de algumas árias que costumava cantar com os Auersberger.

“Como é bonito ficar sentimental de vez em quando”, diz o narrador a certa altura no livro. Pois foi assim, bonito e sentimental, também o final da peça, com a personagem de Rosana declarando o seu amor à cidade e às pessoas que ela tanto dizia que odiava, para então deixar a casa dos Auersberger (o teatro em que estávamos) e ganhar as ruas.


*Publicado também no portal Digestivo Cultural

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6 de mar. de 2008

+ Teatro
Um melodrama cine-teatral
Os Farsantes, peça dirigida por Geraldo Kleina, vale por algumas tiradas de humor e pelo seu espírito crítico



Os Farsantes: as eternas discussões levantadas por Cesar Almeida (sobre o preconceito aos homossexuais, a corrupção na política, as hipocrisias da sociedade etc.) estão presentes na peça.

Mais do que a visão de uma mulher moribunda no centro do palco, a primeira coisa que chama a atenção dos espectadores na peça Os Farsantes, em cartaz no Espaço Falec, é o tapume negro, disposto na horizontal e com cerca de 1 metro de altura, que se interpõe entre a atriz e platéia.

Acima desse tapume, há um outro que parte do teto e se prolonga para baixo, de forma que a boca de cena acaba “enquadrada” como uma tela widescreen de cinema.

Tal efeito combina mesmo com as referências cinematográficas da peça, que aparecem tanto nos curiosos nomes de alguns personagens – como a filha “Winona” (Luciane Figueiredo) e o médico “Brad” (Cesar Almeida), marido de “Angelina” – quanto no estilo do enredo, digno daqueles melodramas rocambolescos que costumavam passar no Supercine, anos atrás.

Prestem atenção: “doente em estado terminal, a rica atriz aposentada Lily (Lala Scremin) é pressionada pela filha Rebeca (Kassandra Speltri) e pelo genro Robert (Ade Zanardini) para que ceda sua herança a eles. Ao mesmo tempo, Lily passa a ser assombrada pelo fantasma de seu filho Sony (Cláudio Fontan)”.

O problema é que essa triste história logo se mostra pouco empolgante. Sua porção trágica não é capaz de nos comover, tendo em vista a precariedade da trama que envolve os personagens, ao mesmo tempo em que a sua porção cômica igualmente não deslancha.

A peça até ganha doses de energia sempre que alguém entra na “sala do hospital” e mexe com os brios de Lily, mas o pique acaba caindo assim que começam os diversos solilóquios dos atores.

Vez ou outra, algumas tiradas também conseguem sacudir esse marasmo. Como quando Robert, um político em plena campanha eleitoral, diz que “marcou um almoço com os executivos da Copel”, ou então quando ele fala que os atores são “piores do que putas; nem nos fazer gozar eles conseguem”.

Passagens como essas, somadas às polêmicas levantadas ao longo da peça – sobre o preconceito aos homossexuais, o uso de drogas, a legitimidade da eutanásia, entre outras – pelo menos divertem e provocam o público por alguns momentos.

Serviço
Os Farsantes. Direção: Geraldo Kleina. Texto: Cesar Almeida. Espaço Cultural Falec (Rua Mateus Leme, 990), de quarta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas, até o dia 16 de março. R$ 14,00 (inteira) e R$ 7,00 (meia-entrada).
Durante o Festival de Teatro, em cartaz também no Espaço Cultural Falec. Sessões nos dias 20 e 21, às 21h. Dias 22, 23 e 24, às 15h.

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21 de abr. de 2007

The Evens em Curitiba

Este blog anunciou aqui, há bastante tempo, o show da dupla The Evens que aconteceu no aniversário de Curitiba, dia 29 de março. Porém, após o show, incrivelmente, nada mais se falou sobre eles.


Pois é, falha desse oligofrênico escrevinhador que vos fala, que estava ocupado com outras coisas e acabou esquecendo de postar a resenha que tinha feito.

Bom, dessa forma, mesmo atrasado, agora que lembrei do fato, faço questão de publicar o texto, só para registrar como a apresentação deles foi realmente antológica para um fã como eu.

Mas antes de mandar vir a resenha, u
ma introdução sobre o The Evens.

Esta banda americana vem de Washington, e é formada por Ian MacKey, voz e guitarra barítona, e Amy Farina, voz e bateria.

Os dois começaram a tocar por volta de 2001, depois que o Fugazi, este excepcional grupo liderado por Ian, interrompeu suas atividades. Vale lembrar também que, antes de formar dupla com Ian, Amy tocava numa ótima banda chamada The Warmers.

Pois bem, em 2005 o The Evens lançou seu primeiro álbum, homônimo, o qual é muito, muito bom. São 12 canções bastante simples e complexas ao mesmo tempo, cheias de nuances, de mudanças de andamento, breaks, enfim, um trabalho que realmente pode ser chamado de arte, e que em 2006 continuou com Get Evens, o segundo disco da banda, este com 10 canções.




No início deste ano então os Evens fizeram a sua primeira turnê mundial. Passaram pela Austrália, Nova Zelândia e depois vieram para a América do Sul. No Brasil, tocaram em várias cidades, sempre em lugares pequenos e alternativos. O show em Curitiba aconteceu no Espaço Cultural 92 Graus.

Pronto. Segue aí a vetusta.


Música é coisa séria

Exigentes com o público, Ian MacKey e Amy Farina também não brincaram em serviço. Deram o sangue em cada canção e realizaram um show que, além de belo, foi bastante politizado


“Just don’t be cool and don’t be shy.” (Ian MacKaye)

“When things should work but don’t work, that’s the work of all these governors” (Trecho de “All these Governors”)

“Everybody knows you’re a liar. (...) You’re fired!!! (Trecho de “Everybody Knows”, que segundo Ian, é dedicada a George Bush)



O show é para começar às oito da noite, mas atrasa. Enquanto isso, ninguém entra no porão do 92 Graus, pois Ian e Amy no momento estão passando o som. O público reduzido – umas cinqüenta pessoas? – se acumula diante da porta. Dali a pouco, surge uma jornalista, não se sabe de onde, interrogando os presentes diante de uma câmera: “O que Ian MacKey representa pra você?”, pergunta ela.

Esses jornalistas, penso comigo, eles e as suas perguntas grandiloqüentes. O que ela quer que o pessoal responda? “Ian mudou a minha vida!”; “É o maior astro de rock de todos os tempos!”

Se bem que, realmente, o sujeito é sim, sem exageros, uma das figuras mais importantes do punk rock mundial, e mudou pelo menos a vida de quem hoje é straightedge. Mas enfim, interessante é o que diz um guri, que tem a resposta para a jornalista, um tanto silogística, na ponta da língua: “Ian criou o Minor Threat, depois o Embrace, mais tarde o Fugazi e por fim o The Evens; logo, The Evens é a evolução do hardcore...”

Lá por nove horas, finalmente, abrem-se as porteiras e a galera (punhado de indies, straightedges, artistas locais e admiradores de boa música em geral) entra. Trato então de pegar uma caipirinha e fico próximo do balcão, sacando algumas beldades que iluminam o local.

Bem, como para variar estou solo e não conheço ninguém, depois de um tempo decido me achegar ao palco, conferir os instrumentos dos Evens: uma guitarra vermelha deveras curtida pelo uso e uma batera bastante simples. Eis tudo. Realmente, não se precisa de muito para se fazer arte, constato. (Ah, e pelo que fiquei sabendo, nem amplificador eles trouxeram. Emprestaram o do vocalista da Relespública).

Eu ali de bobeira, quando Amy e Ian pulam para o palco. Só espero que o “sargento” não venha objetar quanto a minha caipira, penso eu, pois com o sujeito que estava fumando ali perto, Ian já ralhou: “Vai fumar pra lá”, disse. O cara fez que não deu bola, mas depois vazou.

A essa altura o pessoal já está todo espremido diante dos Evens. Ian então nos cumprimenta e emenda a sua preleção habitual. Primeiro nos pergunta ironicamente por que não fomos ao show do Pennywise (na verdade o Pennywise tocaria algumas horas mais tarde no Curitiba Master Hall). Depois avisa que, quem quiser conversar, que vá tagarelar lá fora, afinal as conversas atrapalham a banda.

”Viemos aqui não para fazer um show para vocês, mas com vocês, entenderam? Nós fazemos esse show juntos. (...) Se vocês não interagem, não faz sentido estarmos aqui. Seria o mesmo que eu e a Amy estivéssemos ensaiando. Portanto cante, dance, faça o que quiser. Só não seja ‘cool’ e nem tímido. Somos nós que estamos aqui na frente de vocês, fazendo papel de palhaço, portanto vocês podem fazer o que quiser. Apenas sejam vocês mesmos e não sigam nenhuma convenção, entenderam? Então vamos lá”, e depois desse breve discurso, começa a destrinchar a sua guita com “Shelter Two”, a primeira música do primeiro álbum deles.

É de arrepiar. Apesar de ser uma canção relativamente calma, Ian e Amy realmente botam pra quebrar, põem a alma nisso, e assim o fariam até o final do show. Mesmo sentado num banquinho, fica claro que a postura de Ian se mantém punk. Bate o pé no chão, sacode a cabeça, enfim, canta com emoção, com os culhões! E com Amy é a mesma coisa, aquela mulher miúda, com cara de brava, tocando sua bateria com a classe de um Charlie Watts, e soltando o maior vozeirão.

Algumas músicas depois, Ian dá um tempo para arrumar o seu banco. Sem a menor cerimônia, entrega a guitarra para o primeiro garoto que vê na sua frente, pega um alicate e aumenta o altura do assento. Mais tarde seria Amy quem interromperia uma música para arrumar a sua bateria. “Me passa o alicate, Ian”.

Ian aproveita e diz que isso tudo é falso. Eles só estão “fingindo” todas essas interrrupções, essa falta de profissionalismo. “Que nada, nós vamos ser despedidos...”, brinca ele, que é dono de sua própria gravadora, a Dischord, há mais de vinte anos.

Mais ou menos na metade do show, ao ouvir um grupo de pessoas na maior charla - estavam mesmo atrapalhando -, Ian pára tudo e diz: “Vocês querem que a gente cante mais baixo pra vocês poderem conversar?” “Não, toca mais alto!” grita alguém. E ele, em tom de reprovação, continua: “Música é coisa séria, cara. Tanto que foi ela que nos trouxe até o Brasil. A música estava aqui antes de nós, antes das indústrias fonográficas, antes mesmo da fala, da linguagem. Musica é algo sagrado. Nós não estamos brincando”.

O show prossegue e dali a um tempo o clima melhora. Ian tece loas à cantoria do público. E chega a conclusão. “Sei que os nossos discos são difíceis de se conseguir por aqui. Portanto, se vocês conhecem a nossa música, provavelmente muitos devem ter ouvido pela internet. E quer dizer, não devem ter pagado por ela... (faz então uma pequena pausa dramática). Nós achamos isso ótimo”, emenda ele para a nossa surpresa.

“Música é como água. Há quem queira engarrafá-la e vender para os outros. Mas alguns simplesmente vão bebê-la direto do rio. É para isso que nós fazemos música. Se vocês baixaram nossas musicas na internet, obrigado”.

Por fim, com quase uma hora e vinte de show, quase todas as músicas dos seus dois álbuns executadas, a banda encerra a sua apresentação com “Everybody knows”, canção que, segundo Ian, trata sobre a fugacidade dos políticos: “Uma hora eles vão embora. Está certo que entram outros, mas o que pode ser pior do que isso?”.

“Isso” é claro que significa George W. Bush.

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