19 de fev. de 2011

Perfis)))
Confira alguns perfis de figuras importantes para a cultura baiana, publicados no jornal CORREIO*.

Um perfil de Gal, aquela, do saudoso beco na Vasco da Gama, figura imortalizada também na Melô do Chaco...



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Perfil do grande mestre Lourimbau, quando ele lançou seu primeiro disco, A Arte de Mestre Lourimbau. Em 2010, esse disco, junto com Sinfonia de Arame, de Dinho Nascimento e Capoeira de Besouro, de Paulo César Pinheiro, tocou muito aqui em casa. Os três continuam tocando em 2011.

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7 de mar. de 2010

Luiz Caldas)))
Deboches e fricotes do lado de fora do TCA

Na manhã de domingo, faltaram poltronas no Teatro Castro Alves para acomodar toda a legião de fãs de Luiz Caldas. Tietes que ficaram de fora do show protestaram com bom humor

Enquanto do lado de dentro do Teatro Castro Alves (TCA) o músico Luiz Caldas mostrava a sua versatilidade, no show “Toda Música de Luiz Caldas”, mesclando música erudita, rock e axé, do lado de fora do teatro o público que não conseguiu entrar no recinto mostrava toda a sua indignação.

Por volta das 10h30 de domingo, com o fim dos ingressos (que custavam R$ 1, dentro do projeto Domingo no TCA), os portões do teatro foram fechados – meia hora antes de o show começar. “Eu vou quebrar a cara do sujeito que trabalha aí e que disse que ainda haveria ingresso às dez horas”, bradava, diante do portão, um homem exaltado, que tentava negociar com uma atendente a sua entrada no teatro. “Vim aqui às 9 horas e não me deixaram pegar o ingresso e voltar para casa para tomar um banho. E agora quando eu volto não tem mais como comprar”, explicava. Segundo os atendentes do TCA, a prática de só vender ingressos para quem permanece dentro do teatro é adotada para impedir a ação de cambistas.

Bem menos raivosas, mas ainda sim bastante decepcionadas, estavam as irmãs Evanildes e Maria da Graça Silva. “Estamos frustradas. Foi meia hora de carro para chegar aqui e nada”, conta a pedagoga aposentada Maria da Graça, 60 anos. “Eu, minha irmã e minhas amigas somos todas fã antigas, do tempo de dançar o ti, ti, ti [diz ela, fazendo os passos de dança]. E do tempo em que o Luiz não gostava de andar de sapato”, lembra a enfermeira aposentada, Evanildes, 64. “Agora ele só anda calçado. Coitado, também ficou velho, juntou calo, não aguenta mais as agruras do solo”, brinca a enfermeira. “Se bem que, para a idade, ele ainda está bem sexy. Ainda dá algum caldo”, opina Maria da Graça.

Corpo a corpo com os seguranças
“Pega ela aí... Pra quê? Pra passar batom... Que cor?...” Na entrada lateral do TCA, batendo palmas, cantando e dançando, outras fãs tentavam persuadir os seguranças, para que eles liberassem a entrada. Na linha de frente, puxando o protesto, as “luiz caldetes” Margareth Lunna e Maria Lúcia se destacavam literalmente no maior “deboche” (nome como também era conhecido o estilo de música de Caldas). “Olha, sou empresária da costura, poderosa, estou solteira... Deixa eu entrar, segurança!”, dizia Maria, de 59 anos, que chegou ao TCA após as 10h30. “E pensar que fui vizinha do Luiz, em Vitória da Conquista. Meu irmão José Bonfim era amigão dele, e eu não posso ver o show”, contava ela, triste.

“Eu bem que poderia dar um carteiraço para entrar aqui, mas preferi apenas protestar”, disse a artista plástica Margareth, de 46 anos, indignada. “Poxa, sou artista reconhecida na Itália, meu ex-marido já tocou percussão com o Luiz, e eu ainda vim vestida especialmente para o show!”, argumentava, mostrando a sua saia “fricote”, tirada do fundo do baú. “Essa saia eu usava nos antigos shows dele. Deve ter uns 24 anos. E veja só, ainda cabe direitinho!”, contava, requebrando em frente ao TCA.

Meia hora depois de o show ter começado, os gritos de “Luiz Caldas, cadê você, eu vim aqui só pra te ver”, emitidos por Margareth e demais fãs ainda ecoavam perdidos pelo Campo Grande. Mas em vão. A organização do TCA se manteve irredutível em sua resolução de não colocar nenhuma pessoa no teatro além do número de poltronas disponíveis.

Já quem chegou cedo e pôde conferir o artista não teve do que reclamar. “Showzaço”, “maravilhoso” e “muito bom” foram alguns dos adjetivos ouvidos pela reportagem sobre a apresentação.

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Luiz Caldas, meu parente



Em Curitiba, já perdi a conta das vezes em que ouvi esta pergunta: “E esse sobrenome Caldas? Você é parente do Luiz Caldas? Aquele da Tieta... que dançava descalço...?” Mesmo duvidando muito dessa possibilidade, sempre gostei de responder com um absoluto “sim”. Ainda mais que meu bisavô Aristides Caldas era baiano...

Pois bem. Para acabar de vez com esse dilema, levei a questão à pessoa certa. No fim do show de Luiz Caldas, lá estou eu, no camarim do Teatro Castro Alves, aguardando a minha vez para trocar uma ideia com ele. O acesso ao camarim, vale dizer, foi graças à Margareth Lunna, que literalmente me empurrou para dentro do teatro ao fim da apresentação, e graças à compositora
Juliana Ribeiro, que conhece o Luiz e também estava por lá.

Depois de uns vinte minutos de espera, chega a hora de eu conhecer pessoalmente o “pai da axé music”, que daquele visual antigo, de quando cantava “Tieta” ou “Fricote” nos anos 80, hoje, não carregada quase nada. Com um piercing no nariz, e todo vestido de preto – do all star, passando pela calça jeans, a camiseta e as unhas – o estilo de Luiz é o de
um roqueiro moderno. E é esse sujeito completamente repaginado que me recebe com um caloroso aperto de mão.

Em poucos minutos então resumo para ele o meu dilema: “Sou jornalista, de Curitiba, e lá todo mundo me pergunta se somos parentes. O que você acha?” Ao que ele responde, rindo: “Ora, quem sabe?
O ramo da família é muito grande. Por que não?”, diz Luiz, que depois pacientemente ainda dá um autógrafo ao “Franco Caldas, amigo e parente!” – palavras dele.

Publicado no Jornal TiraGosto em 09/03/10

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12 de mar. de 2008

+ Música
As clássicas dos irmãos Barnabé
Arrigo Barnabé e Patife Band, grupo de Paulo Barnabé, dividiram o palco do Teatro da Caixa nos últimos dias 6, 7, 8 e 9. Abaixo, a resenha do show que aconteceu no domingo.

Fundindo rock e punk com técnicas da música erudita, a Patife Band abriu o show de domingo, quase fundindo também, com sua sonoridade tão densa e agressiva, alguns tímpanos mais frágeis e desavisados.

Como os da senhora sentada ao meu lado, que de repente me interpelou: “Escute, e o Arrigo? Cadê ele?” Tive de explicar então que aquela era a banda do Paulo Barnabé, o sujeito que está tocando bateria, apontei, e que é irmão do Arrigo. O Arrigo mesmo só vai entrar no palco daqui a pouco, disse a ela.

Insatisfeita, a mulher me confidenciaria: “Essa música está me dando dor de cabeça! Quanto tempo isso ainda vai durar?”, queria saber. “Acho que uns 15 minutos”, arrisquei, ao que ela apenas suspirou e depois cochichou algo com uma colega que estava ao seu lado.

Após algum tempo, inutilmente eu ainda tentaria estimular minha pobre amiga informando que a letra do estranho punk rock que ouvíamos vinha do “Poema em linha reta”, de Fernando Pessoa: “Viu só? Rock também é poesia!” Mas ela tampouco deu a mínima para o meu comentário.

Depois dessa, Arrigo finalmente entrou em cena com seu piano elétrico, ao lado de Paulo Braga, no teclado. Cantou desde músicas mais descontraídas como “Clara Crocodilo”, “Diversões Eletrônicas” e “Orgasmo total” – que arrancaram risos da platéia –, como também proporcionou momentos mais líricos e introspectivos em “Lenda” e “Cidade Oculta”

Nas suas músicas apenas instrumentais, porém, uma parcela do público ficou visivelmente aporrinhada. E dentre a meia dúzia que deixou o teatro antes do término da apresentação, lá estava ela: a senhora impaciente!

Arrigo ainda tocaria uma música junto com a Patife Band e, por fim, foi o grupo de Paulo Barnabé que se encarregou do bis, com “Corredor Polonês”, o último petardo da noite.

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26 de jan. de 2008

+ Música
Tom Waits baixa num porão de Curitiba
No show “À espera de Tom”, que aconteceu na última terça-feira (22), Carlos Careqa reinterpretou canções do cultuado músico e ator americano


Carlos Careqa homenageia Tom Waits.


Estou no minúsculo e lotado porão do Wonka Bar, sentado, feito índio, no chão. Isso mesmo. Há um tapete no chão e almofadas espalhadas para que o público se acomode.

Perto da meia-noite, finalmente chega ao palco Carlos Careqa, acompanhado de Mário Manga (guitarra, violoncello e cavaquinho), Guello (percussão), Gabriel Levye (piano e acordeon) e Glauco Sölter (contrabaixo). Começa o show “À Espera de Tom”, em que Careqa reinterpreta as canções de Tom Waits e, como bom ator, faz o papel de um Waits tupiniquim, vestido de terno preto, camisa de seda vermelha, chapéu e óculos escuros.

Mas além da questão teatral de engrossar a voz e fazer pose de beberrão (com longnecks de antártica) para cantar as divertidas “Guaraná Jesus” (versão para “Chocolate Jesus”) e “Eu e meu cachorro louco” (“Rain Dogs”), Careqa consegue mostrar uma boa dose de romantismo em "Garota de Garulhos" ("Jersey Girl"), e chega a tornar-se lírico em “Boa Noite Matilda” (“Tom Traubers Blues”).

Ele pouco se importa também em quebrar esse mesmo lirismo com suas tiradas e provocações, que ocupam quase outra metade da apresentação. Na belíssima “Tempo” (“Time”), quando Guello arrebata gritinhos da platéia com seu solo na tabla, Careqa não perdoa: “É o Luau MTV!”

A certa altura, Careqa lembra que foi Raul Cruz – ator, diretor e artista plástico parnanguara, falecido em 1993 –, quem lhe apresentou ao universo de Tom Waits nos idos de 1985. “Vocês nem eram nascidos”, provoca Careqa, que lá pelas tantas não resiste em ver as almofadas e se atira ao público num performático stage diving. “Alguém aí se machucou?”, pergunta ele depois, desentortando os seus óculos.

Para o delírio dos curitibanos, no finzinho do show Careqa relembra o sucesso “Pipoca aos turistas”, que contém o famoso verso “Eu gosto de Cu... ritiba”, e fecha o bis com a incendiária “Psychokiller”, dos Talking Heads.

Ouça músicas do disco “À Espera de Tom” em: http://www.myspace.com/aesperadetom

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15 de dez. de 2007

+ Cinema
Viagem pela música turca
Documentário Atravessando a ponte: o som de Istambul apresenta um panorama da riqueza musical turca


Ao ver Contra a parede (Gegen die Wand, 2004), do diretor Fatih Akin, lembro que fiquei bastante impressionado com uma maravilhosa orquestra turca que, além de integrar a trilha sonora do filme, de certa forma ajudava a narrar a história com as suas canções.

Ontem, fiquei feliz de rever dois integrantes dessa orquestra, o clarinetista Salim Sester e a cantora Brenna MacCriminnon, em mais um filme de Akin, o documentário Atravessando a ponte: o som de Istambul (Crossing the bridge: the sound of Istambul, 2005) que está em cartaz em Curitiba, no Cine Luz.

O documentário é uma espécie de Buena Vista Social Club, só que rodado na Turquia. Tal como Wim Wenders fez com os artistas cubanos, Akin resgata nomes importantes da música turca, como Orhan Gencenbay (cantor de visual brega, virtuose no instrumento de cordas conhecido como “saz”), Sesen Aksu (estrela da música romântica) e Erkin Koray (o roqueiro sessentista mais conhecido da Turquia).

Akin também vai além e nos apresenta uma série de novos artistas turcos como o rapper Ceza (que dispara rimas em turco feito uma metralhadora), o grupo Orient Expressions (que mistura psicodelia e batidas eletrônicas com o instrumental turco) e os hippies do Siyasiabend (que fazem questão de só tocar nas ruas).

E se em Buena Vista quem explorava a ilha de Fidel era o guitarrista Ry Cooder, em Atravessando a ponte quem percorre Istambul atrás dos artistas, por vezes até tocando eles, é o baixista Alex Hacke, do grupo alemão Einstürzende Neubauten.

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4 de mai. de 2007

Artes
Grandes perdas: Rostropovich e Jamil


"Slava" e o "Turco": expoentes da música e da literatura

Em homenagem ao violoncelista russo Mstislav Rostropovich, que faleceu recentemente, no dia 27 de abril, e a Jamil Snege, falecido no dia 16 de maio de 2003, segue o início de um magistral conto de Snege, presente no livro Os Verões da Grande Leitoa Branca (Travessa dos Editores, 2000), o qual, não por acaso, intitula-se: “Em busca de Rostropovich”:

“Gosto dos outonos nublados e frios de Curitiba. Vista aqui do alto, do vigésimo andar, Curitiba lembra um pouco Buenos Aires, a Calle Lavalle, lembra um pouco Lyon, Bruxelas ou outra cidade européia que jamais conheci.

Por um momento essa atmosfera me envolve a ponto de me convencer a vestir o casaco e descer até a rua, predisposto a saciar uma súbita fome intelectual por um bom livro, uma boa música, uma obra de arte qualquer.

Li recentemente que Rostropovich reuniu em álbum* suas principais gravações feitas entre 1950 e 1974, das Bachianas a Schumann e Beethoven, incluindo os dois concertos de Chostacovich.

Eis o pretexto: procurar Rostropovich nas casas especializadas de Curitiba, embora saiba de antemão que será uma busca vã. Já imagino o ar de riso das moças que me atenderão, as consultas ao gerente, as desculpas, mas preciso manter a qualquer custo a atmosfera.

Estou, afinal, numa capital européia – não é disso que a propaganda oficial sempre tentou nos convencer? Não duvido, portanto, de cruzar com o próprio Rostropovich e seu violoncelo no meio da Praça Osório, atrasado para o ensaio de dali a pouco na Escola de Música e Belas Artes do Paraná”.

O conto segue, o personagem – um sujeito de personalidade não muito diferente do Jamil – então entra num sebo à caça de um disco do russo, quando três bandidos invadem a loja e dão voz de assalto. O final dessa história você descobre lendo esse livro aqui.




E quem quiser ouvir o álbum* mencionado no conto, procure por este:



Mstislav Leopoldovich Rostropovich
Nasceu a 27 de março de 1927 no Arzeibaijão – na época parte da União Soviética –, numa cidadezinha chamada Baku. Oriundo de uma família de músicos (seu pai era violoncelista, teve aulas com Pablo Casals; a mãe era pianista) Rostropovich começou a estudar piano aos 4 anos e violoncelo aos 10. Aos 16 entrou para o conservatório de Moscou, onde estudou composição com Prokofiev e Shostacovich.


Em 1945 ganhou um concurso na URSS para jovens músicos. Rostropovich seria aclamado então como uma das principais figuras da música em seu país e começaria a se apresentar pelo mundo todo. Entretanto, “Slava”, como era chamado pelo amigos, não compactuava com o autoritarismo do regime comunista e inclusive comprou briga com o Estado quando, em 1970, abrigou o escritor Aleksandr Solzhenitsyn (que era considerado subversivo) em sua fazenda e escreveu uma carta aberta aos jornais russos, defendendo-o.

Em 1973, deixaria a URSS, exilando-se nos Estados Unidos e depois na França. Com o fim do comunismo, voltaria mais frequentemente à Russia, e fez questão de realizar o tratamento contra o câncer que o acometia, em sua pátria, onde acabou falecendo no dia 27 de abril, aos 80 anos. Rostropovich é considerado um dos maiores violoncelistas do século XX.

Jamil Antônio Snege
Nascido a 10 de julho de 1939 em Curitiba, PR, era descendente de sírios e italianos. Sua relação com o mundo dos livros começou desde o berço, visto que seu pai, José Snege, era tipógrafo. Aos 16 anos Jamil já escrevia profissionalmente, atuando como colunista social, atividade que teve que ser interrompida com a sua ida para o Rio de Janeiro em 1959.


Depois de ser expulso do Núcleo de Preparação dos Oficiais da Reserva, o NPOR, em Curitiba, por ter provocado um incêndio em um campo de treinamento, foi obrigado a servir mais um ano de exército como soldado raso. Optaria então por servir no Rio de Janeiro, como pára-quedista.

De volta a Curitiba, depois de cumprido o seu compromisso com a mãe pátria, o "Turco" (assim os amigos o chamavam) voltaria para a imprensa, mas como redator-chefe da revista Planalto. Jamil passaria então por mais algumas revistas e jornais, até conseguir emprego como redator de publicidade. Formou-se em Sociologia em 1968, mas continuou trabalhando com publicidade até o fim da vida, tendo adquirido a sua própria agência, a Beta, em 1983.

Ao mesmo tempo, sempre esteve envolvido com a literatura. Publicou seu primeiro livro individual em 1968, a novela Tempo Sujo, e escreveria mais outros dez livros, que contemplaram diversos gêneros: conto, poesia, memórias e teatro. Faleceu no dia 16 de maio de 2003, aos 63 anos, vitimado por um câncer de pulmão. Jamil Snege é uma grande figura da literatura e da publicidade brasileira que merece ser sempre lembrada.

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21 de abr. de 2007

The Evens em Curitiba

Este blog anunciou aqui, há bastante tempo, o show da dupla The Evens que aconteceu no aniversário de Curitiba, dia 29 de março. Porém, após o show, incrivelmente, nada mais se falou sobre eles.


Pois é, falha desse oligofrênico escrevinhador que vos fala, que estava ocupado com outras coisas e acabou esquecendo de postar a resenha que tinha feito.

Bom, dessa forma, mesmo atrasado, agora que lembrei do fato, faço questão de publicar o texto, só para registrar como a apresentação deles foi realmente antológica para um fã como eu.

Mas antes de mandar vir a resenha, u
ma introdução sobre o The Evens.

Esta banda americana vem de Washington, e é formada por Ian MacKey, voz e guitarra barítona, e Amy Farina, voz e bateria.

Os dois começaram a tocar por volta de 2001, depois que o Fugazi, este excepcional grupo liderado por Ian, interrompeu suas atividades. Vale lembrar também que, antes de formar dupla com Ian, Amy tocava numa ótima banda chamada The Warmers.

Pois bem, em 2005 o The Evens lançou seu primeiro álbum, homônimo, o qual é muito, muito bom. São 12 canções bastante simples e complexas ao mesmo tempo, cheias de nuances, de mudanças de andamento, breaks, enfim, um trabalho que realmente pode ser chamado de arte, e que em 2006 continuou com Get Evens, o segundo disco da banda, este com 10 canções.




No início deste ano então os Evens fizeram a sua primeira turnê mundial. Passaram pela Austrália, Nova Zelândia e depois vieram para a América do Sul. No Brasil, tocaram em várias cidades, sempre em lugares pequenos e alternativos. O show em Curitiba aconteceu no Espaço Cultural 92 Graus.

Pronto. Segue aí a vetusta.


Música é coisa séria

Exigentes com o público, Ian MacKey e Amy Farina também não brincaram em serviço. Deram o sangue em cada canção e realizaram um show que, além de belo, foi bastante politizado


“Just don’t be cool and don’t be shy.” (Ian MacKaye)

“When things should work but don’t work, that’s the work of all these governors” (Trecho de “All these Governors”)

“Everybody knows you’re a liar. (...) You’re fired!!! (Trecho de “Everybody Knows”, que segundo Ian, é dedicada a George Bush)



O show é para começar às oito da noite, mas atrasa. Enquanto isso, ninguém entra no porão do 92 Graus, pois Ian e Amy no momento estão passando o som. O público reduzido – umas cinqüenta pessoas? – se acumula diante da porta. Dali a pouco, surge uma jornalista, não se sabe de onde, interrogando os presentes diante de uma câmera: “O que Ian MacKey representa pra você?”, pergunta ela.

Esses jornalistas, penso comigo, eles e as suas perguntas grandiloqüentes. O que ela quer que o pessoal responda? “Ian mudou a minha vida!”; “É o maior astro de rock de todos os tempos!”

Se bem que, realmente, o sujeito é sim, sem exageros, uma das figuras mais importantes do punk rock mundial, e mudou pelo menos a vida de quem hoje é straightedge. Mas enfim, interessante é o que diz um guri, que tem a resposta para a jornalista, um tanto silogística, na ponta da língua: “Ian criou o Minor Threat, depois o Embrace, mais tarde o Fugazi e por fim o The Evens; logo, The Evens é a evolução do hardcore...”

Lá por nove horas, finalmente, abrem-se as porteiras e a galera (punhado de indies, straightedges, artistas locais e admiradores de boa música em geral) entra. Trato então de pegar uma caipirinha e fico próximo do balcão, sacando algumas beldades que iluminam o local.

Bem, como para variar estou solo e não conheço ninguém, depois de um tempo decido me achegar ao palco, conferir os instrumentos dos Evens: uma guitarra vermelha deveras curtida pelo uso e uma batera bastante simples. Eis tudo. Realmente, não se precisa de muito para se fazer arte, constato. (Ah, e pelo que fiquei sabendo, nem amplificador eles trouxeram. Emprestaram o do vocalista da Relespública).

Eu ali de bobeira, quando Amy e Ian pulam para o palco. Só espero que o “sargento” não venha objetar quanto a minha caipira, penso eu, pois com o sujeito que estava fumando ali perto, Ian já ralhou: “Vai fumar pra lá”, disse. O cara fez que não deu bola, mas depois vazou.

A essa altura o pessoal já está todo espremido diante dos Evens. Ian então nos cumprimenta e emenda a sua preleção habitual. Primeiro nos pergunta ironicamente por que não fomos ao show do Pennywise (na verdade o Pennywise tocaria algumas horas mais tarde no Curitiba Master Hall). Depois avisa que, quem quiser conversar, que vá tagarelar lá fora, afinal as conversas atrapalham a banda.

”Viemos aqui não para fazer um show para vocês, mas com vocês, entenderam? Nós fazemos esse show juntos. (...) Se vocês não interagem, não faz sentido estarmos aqui. Seria o mesmo que eu e a Amy estivéssemos ensaiando. Portanto cante, dance, faça o que quiser. Só não seja ‘cool’ e nem tímido. Somos nós que estamos aqui na frente de vocês, fazendo papel de palhaço, portanto vocês podem fazer o que quiser. Apenas sejam vocês mesmos e não sigam nenhuma convenção, entenderam? Então vamos lá”, e depois desse breve discurso, começa a destrinchar a sua guita com “Shelter Two”, a primeira música do primeiro álbum deles.

É de arrepiar. Apesar de ser uma canção relativamente calma, Ian e Amy realmente botam pra quebrar, põem a alma nisso, e assim o fariam até o final do show. Mesmo sentado num banquinho, fica claro que a postura de Ian se mantém punk. Bate o pé no chão, sacode a cabeça, enfim, canta com emoção, com os culhões! E com Amy é a mesma coisa, aquela mulher miúda, com cara de brava, tocando sua bateria com a classe de um Charlie Watts, e soltando o maior vozeirão.

Algumas músicas depois, Ian dá um tempo para arrumar o seu banco. Sem a menor cerimônia, entrega a guitarra para o primeiro garoto que vê na sua frente, pega um alicate e aumenta o altura do assento. Mais tarde seria Amy quem interromperia uma música para arrumar a sua bateria. “Me passa o alicate, Ian”.

Ian aproveita e diz que isso tudo é falso. Eles só estão “fingindo” todas essas interrrupções, essa falta de profissionalismo. “Que nada, nós vamos ser despedidos...”, brinca ele, que é dono de sua própria gravadora, a Dischord, há mais de vinte anos.

Mais ou menos na metade do show, ao ouvir um grupo de pessoas na maior charla - estavam mesmo atrapalhando -, Ian pára tudo e diz: “Vocês querem que a gente cante mais baixo pra vocês poderem conversar?” “Não, toca mais alto!” grita alguém. E ele, em tom de reprovação, continua: “Música é coisa séria, cara. Tanto que foi ela que nos trouxe até o Brasil. A música estava aqui antes de nós, antes das indústrias fonográficas, antes mesmo da fala, da linguagem. Musica é algo sagrado. Nós não estamos brincando”.

O show prossegue e dali a um tempo o clima melhora. Ian tece loas à cantoria do público. E chega a conclusão. “Sei que os nossos discos são difíceis de se conseguir por aqui. Portanto, se vocês conhecem a nossa música, provavelmente muitos devem ter ouvido pela internet. E quer dizer, não devem ter pagado por ela... (faz então uma pequena pausa dramática). Nós achamos isso ótimo”, emenda ele para a nossa surpresa.

“Música é como água. Há quem queira engarrafá-la e vender para os outros. Mas alguns simplesmente vão bebê-la direto do rio. É para isso que nós fazemos música. Se vocês baixaram nossas musicas na internet, obrigado”.

Por fim, com quase uma hora e vinte de show, quase todas as músicas dos seus dois álbuns executadas, a banda encerra a sua apresentação com “Everybody knows”, canção que, segundo Ian, trata sobre a fugacidade dos políticos: “Uma hora eles vão embora. Está certo que entram outros, mas o que pode ser pior do que isso?”.

“Isso” é claro que significa George W. Bush.

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11 de abr. de 2007

Música e Dança
Começa temporada 2007 da Noite Latina
Ritmos como salsa, samba, bolero, tango e muitos outros, estarão presentes na primeira Noite Latina do ano



Companhia Dança Latina Walmir Secchi em ação: samba de gafieira

Nesta sexta-feira, 13, o Centro de Dança Latina Walmir Secchi (CDLWS) volta a proporcionar uma programação exclusiva aos amantes da música, da dança e do espírito latino.

Começa agora mais uma temporada da Noite Latina em Curitiba, uma série de cinco festas que já estão programadas até dezembro.

A Noite Latina dessa sexta-feira acontece no Capri Eventos, a partir das 22h00, e vai até as 4 da manhã, ao som de ritmos brasileiros, caribenhos e portenhos.

Além de dançar a noite inteira, os presentes também poderão assistir aos shows da Companhia Dança Latina Walmir Secchi, que apresentará coreografias de tango, samba, salsa e merengue.

No restaurante, estará disponível um serviço à la carte. Os ingressos custam R$20 (antecipados) e R$25 (no local).

Sobre a Noite Latina
Criada no final de 1998 por Walmir Secchi, a Noite Latina se transformou num ponto de encontro de todos os admiradores da cultura latina, que ali se reúnem para dançar e ouvir boa música.

Ao longo de suas edições, a Noite Latina já atingiu um público estimado de 27 mil pessoas, sendo considerado o maior evento de dança de salão do Brasil.

Este ano serão realizadas 5 festas: dia 13 abril, 1 de junho, 3 de agosto, 5 de outubro e 7 de dezembro.


Serviço:
Noite Latina, dia 13 de abril, a partir das 22h00, no Capri Eventos. Rodovia Do Café, 3001. Ingressos a R$20 (antecipados) e R$25 (no local). Maiores informações pelo tel.: 3339-4007, ou pelo site http://www.dancalatina.com.br

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23 de dez. de 2006

Música
Uma experiência religiosa
Com uma apresentação sisuda, perfeccionista e repleta de clássicos, Echo and The Bunnymen deixa público curitibano hipnotizado

http://www.rabisco.com.br/78/religiosa.htm
Publicado na revista eletrônica Rabisco, em maio de 2006

Verdade seja dita: o álbum Siberia (2005) é um dos mais fracos que o Echo and The Bunnymen já lançou, assim como o What are you going to do with your life (1999). Não fez diferença nenhuma nele a participação de Hugh Jones, o mesmo produtor do excelente Heaven Up Here (1981). Há muito que o Echo deixou para trás aquela pegada ao mesmo tempo punk e sinistra, como só eles sabiam fazer. Ian McCuloch agora só pensa em se tornar uma espécie de Frank Sinatra. Ultimamente compõe músicas tão piegas quanto o Chris Martin (“What if we are” e “Everything kills you”, em Siberia, exemplificam o que estou falando). Enquanto isso, Will Seargent faz suas experiências psicodélicas e eletrônicas com Glide, seu projeto paralelo, porém no Echo sua criatividade é refreada.

De modo que, graças aos céus, a banda tocou nos shows brasileiros apenas três ou quatro músicas deste já devidamente vilipendiado Siberia, dando preferência aos clássicos de muitos anos atrás. No show realizado em Curitiba (29/04), tal qual no Rio de Janeiro e São Paulo, tudo começou como nos anos 80. Primeiro, o canto gregoriano. Depois, da “phantom” vermelhinha de Will Seargent brotaram os primeiros acordes de “Going Up” (faixa número um do álbum de estréia do Echo, Crocodiles), executada num andamento mais arrastado do que o normal. Isso deixou a música muito mais soturna, mais pesada do que nunca, sendo que o show inteiro seguiria então por essa mesma linha.

“If they’re watching my film, analysing me…”, a voz de McCulloch também soava bem diferente daquilo que ficou registrado em vinil. Desde Electrafixion – banda que Ian e Will formaram na década de 90 –, cristalizou-se nele esse timbre de um homem eternamente gripado, a garganta curtida por tanto fumo e bebida. Pelo menos se Mac não alcança tantas notas como antigamente, a maturidade tem lá suas vantagens e ele hoje não desafina.

“Show of Strength”, do segundo disco, o já citado Heaven Up Here, veio na seqüência, incendiando o reduzido público presente no Curitiba Master Hall. Umas quatrocentas pessoas? Mais ou menos isso. No entanto, fizeram um barulho danado. Afinal, eram todos fãs devotados e cantaram junto com a banda a maioria das músicas, inclusive as de Siberia: o hit “Stormy Weather”, “Of a Life”, a monótona “Scissors in the Sand” e “In the Margins”, na qual Will pôde destilar um pouquinho de seus efeitos “espaciais” na guitarra, tão característicos, como faz em Glide.

Por falar em espacial, o que dizer da vestimenta de Seargent? Um paletó negro abotoado, à la Star Wars, lhe dava um toque de oficial das tropas de Darth Vader. Ian estava igualmente cartunesco, com um visual noir e com seus tradicionais óculos escuros. Os outros jovens músicos acompanhantes, vestidos apenas como “jovens músicos acompanhantes” destoavam completamente dos dois.

O set-list foi completo com uma variedade de clássicos do calibre de “Seven Seas”, “Never Stop”, “Killing Moon”, “Rescue”, “Lips Like Sugar” e por aí afora. Emendaram também covers do Lou Reed, “Take a walk on the wild side”, e The Doors, “Roadhouse Blues”, influências das quais a banda nunca conseguirá se livrar.

No final, o resultado foi uma apresentação bastante séria, perfeccionista e que agradou imensamente a todos os fãs. Se Will Seargent já disse uma vez (é dele aquela idéia de colocar o canto gregoriano) que desejaria que os shows do Echo and The Bunnymen envolvessem o público tal como “numa experiência religiosa”, pois bem: assim foi.

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11 de dez. de 2006




https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,producao-da-peca-leonce-e-lena-em-busca-de-elenco,20060224p5228.amp

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Música A metamorfose do Dr. Nêmesis Arrigo Barnabé estreou, em Curitiba, obra inédita com a Orquestra à Base de Sopro No sábado e domingo (9 e 10) passados, tivemos show do Arrigo Barnabé em Curitiba, mais especificamente no teatro do “museu do olho”, o Museu Oscar Niemayer. Na estréia, poltronas quase lotadas. Resultado de uma considerável divulgação e do bom número de fãs na cidade. Segundo Arrigo, a primeira parte da apresentação seria mais leve, tendo em vista que em “A Metamorfose”, que ele compôs especialmente para esse concerto com a “Orquestra à Base de Sopro”, a coisa iria esquentar. E foi assim mesmo. De início, só ele cantando ao piano a valsa “Toda Nudez”, e mais algumas canções que, como ele mesmo disse, não podiam muito bem ser chamadas como tal. “Diversões Eletrônicas”, por exemplo. É um texto (caótico) com música, não uma canção. Porém o “orgasmo total” da noite, sem o perdão do trocadilho (pra quem não sabe, “Orgasmo Total” é o nome de uma música dele, também executada nessa apresentação), foi realmente a sua “Metamorfose”. A letra em determinado trecho já avisava para não ser confundida com título de livro: “Não é Kafka, nem Ovídio. Nem Paulo Coelho”. Pois a metamorfose nada mais era do que um “jingle sinfônico” de mais dez minutos sobre o misterioso serviço de rejuvenescimento prestado pelo doutor "Nêmesis". “Você quer mudar a sua visão de mundo? Não, você só quer parecer mais jovem!” (trecho de “A Metamorfose”) Mais uma vez, como em “Kid Supérfluo”, Arrigo provocava certos valores da nossa sociedade. Neste caso, a busca desenfreada pela beleza e pela juventude eterna. “Chega um momento na vida em que tudo perde a graça. Você se sente como uma lambisgóia, ou um lambisgóio”, dizia a letra, e é bem possível que o tema envolva um certo dilema enfrentado pelo próprio Arrigo, não mais o jovem da vanguarda paulista dos anos 80, mas um homem de meia-idade, com 55 anos. Todavia, Arrigo ainda mantém a pose de garotão no palco, seja pela sua verve ou pela sua aparência mesmo, com seus cabelos desgrenhados, de tênis e calça jeans.
Sua performance como o insano doutor Nêmesis – “Dr. Nemêsis? Dr. Menezes?”, perguntavam incrédulas as cantoras do trio “Noivas de Alfreddo” (Daniella Gramani, Melina Mulazani e Roseane Santos), que faziam os back vocals –arrancavam risos não só do público como dos próprios músicos da Orquestra conduzida pelo regente Sérgio Allbach.
No final, teve direito a bis. Porém aos pedidos de “Clara Crocodilo”, “Tubarões Voadores”, “Londrina”, Arrigo respondeu: “Fica pra outro concerto. Tem que ensaiar”. Deixou o público querendo mais.

Teatro

“Wenn man ins Theater geht wie in die Kirche oder in den Gerichtssaal, oder in die Schule, das ist schon falsch. Man muß ins Theater gehen wie zu einen Sportsfest”.(Bertolt Brecht, Schriften 1, Suhrkamp Verlag, pág.56)

“Nada a ver ir ao teatro como se fôssemos a uma igreja, a um tribunal ou a uma escola. Bora ir ao teatro como quem vai a um evento esportivo”.

Eletrizante como uma boa luta Na peça "Box’s", escrita e dirigida por Andrew Knoll, a saga do pugilista Tito Palito mostrou-se repleta de humor e criatividade Tanto as mostras de teatro, como as provas públicas da Faculdade de Artes do Paraná, reservam sempre boas surpresas aos seus espectadores. Peças como "Angel City" e "Parasitas", realizadas no ano passado, exemplificam o que estou dizendo. Na última semana (entre 30/11 a 3/12) tivemos novamente algumas peças da FAP pela cidade e, entre elas, destaco a montagem de “Box’s’”, prova de direção do formando Andrew Knoll, que aconteceu na Casa Vermelha, no Largo da Ordem. Descrita de forma indigesta como uma “tragédia-love-pop-cult-spagetti-coração-latin-ítalo-peperone” no e-mail de divulgação, o termo bem ou mal sintetiza o que foi esse espetáculo. Acima de tudo, Box’s era uma tragédia de amor nos moldes de um filme “b”, daqueles de pancadaria que passavam (ainda passam?) no “Domingo Maior”, porém dispensando a violência e o sangue habituais. Andrew dirigiu, escreveu e atuou nessa peça que trata de um boxeador chamado Tito Palito (Nawbert Cordeiro), o qual luta por dinheiro nos porões escuros do “Tóquio Boxe Show”. “Aqui em Tóquio é foda”. (trecho de "Box's") Lá ele peleja com seu eterno adversário, o Peperoni (Ricardo Juchem), flerta com a oportunista Daniela (Cláudia Spunked) e é adulado tanto pelo dono do “Tóquio” (Andrew Knoll), como pela Mídia Vampiresca (Fernanda Albanaz). Mas apesar de ser um lutador de talento, uma verdadeira promessa do esporte, Tito é um sujeito em crise e possui uma dificuldade de existir no mundo – mundo esse apocalíptico, diga-se de passagem, uma terra devastada como a de "Mad Max”. (Pensando bem, “Box’s” tem muito desse filme, como de outros do gênero). O desamparo de Tito fica ainda maior quando sua amante, a gostosona Judy (Verônica Rodrigues), lhe dá um pé na bunda. Tito então pensa em se matar, pensa também em matá-la e, no final, é o que acaba fazendo. Todavia, isso não é narrado simples assim, de forma linear. A trama é cheia de saracoteios e flashbacks e, pelo menos eu, só fui entendê-la melhor depois de assistir a peça três vezes. Não que eu seja um abilolado completo (pode ser também), mas é que a montagem era tão criativa, engraçada, tão cheia de detalhes, que era impossível apreender aquilo tudo de uma vez só. No final de cada apresentação dava vontade de assisti-la novamente, tanto para perceber algo novo, como para dar boas gargalhadas. Um grande mérito de Box’s foi mesmo o seu senso de humor “trash”, porém apurado ao mesmo tempo, bem feito. Sem contar que, além de fazer rir, a peça apresentou imagens bastante inventivas e poéticas também. “O fundo do poço não é tão longe. O fundo do poço está à distância de um tropeço”. Compor um ringue vivo para as lutas do “Tóquio Boxe Show”, por exemplo, com atores sustentando fitas elásticas, feito aquela brincadeira que as crianças, sobretudo as meninas, faziam, lembram? Pular elástico? Genial. Algo tão simples e, ao mesmo tempo, complicado. Os quatro atores que formavam esse quadrado, que por vezes assumia outras formas e se desmontava, tiveram que realizar uma verdadeira coreografia com aquelas fitas. Além dessa idéia do ringue, houve muitas outras de grande imaginação, do tipo fazer os lutadores brigarem feito um jogo de Atari, ou então quando Judy arrebenta um bracelete de “pérolas” e além das bolinhas que se espalham pelo chão, outras gigantes (de isopor) “caírem” do céu. Interessante observar também a importância da interação do público para essa montagem que já começava, não gratuitamente, como uma “balada”. Knoll pretendeu enxotar a nossa passividade a princípio criando essa atmosfera de uma boate, com os atores nos incentivando a dançar com eles. Mais tarde seríamos transformados realmente em torcedores à beira do ringue e, por fim, tudo se encerraria como no início: uma festa. Eis o exemplo de um teatro vibrante.

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